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Não há memória para tanta gente - Frei Bento OP

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Não há memória para tanta gente

12.04.2009, Frei Bento Domingues O.P.
É bom salvaguardar o futuro da espécie. Será que as pessoas, na originalidade de cada uma, não contam?

1. No começo da Semana Santa realizou-se, em Istambul, o II Fórum Mundial da Aliança das Civilizações. O primeiro tinha sido realizado, em Madrid, em 2008. Jorge Sampaio foi nomeado alto-representante da ONU para a Aliança das Civilizações, pelo secretário-geral das Nações Unidas, a 26 de Abril de 2007. Apresentou a Aliança como uma verdadeira iniciativa política global para promover um diálogo sustentável entre as civilizações. Ainda é muito cedo para avaliar a eficácia desta iniciativa. De qualquer forma, já tem uma vitória global: a atenção deixou de se fixar no chamado "choque inevitável de civilizações" - caminho da morte - para se centrar no diálogo, princípio de esperança.

2.A revista Humanística e Teologia recolheu duas conferências que o famoso teólogo protestante, J. Moltmann, proferiu na Faculdade de Teologia do Porto. Na primeira, procura responder à questão: o que é a vida humana? Na segunda, aborda a biotecnologia à luz da nova neurobiologia e de uma teologia integral. Assume a recente tese neurobiológica da cooperação da natureza - "simpatia" em lugar de "guerra da natureza".

Não deixa, porém, de destacar os contrastes da posição de Darwin e de a situar na Grã-Bretanha imperial do século XIX. Charles Darwin, apoiado em três escritores seus contemporâneos, depois de descrever "o avanço do homem de uma primitiva condição semi-humana para a actual selvajaria animada", interroga-se acerca do influxo da "selecção natural sobre as nações civilizadas".

Fala contra a vacinação antivariólica, pois através dela também os estratos mais fracos da nossa espécie conseguem sobreviver, podendo reproduzir-se. Destaca a sabedoria dos criadores de gado que não admitem os animais piores para posterior criação. Porém, ao ser contra a guerra entre as pessoas, Darwin parece ilógico.

Com essa atitude refuta o seu próprio princípio fundamental da exigência da evolução mediante a "guerra da natureza". Na guerra, morrem os melhores, enquanto os mais pequenos, os homens mais fracos e de constituição mais delicada podem ficar em casa. Têm mais hipóteses de casar e de reproduzir a sua espécie. Desse modo, o número dos imprudentes, dos miseráveis e dos estratos frequentemente mais degradados da sociedade tende a crescer numa proporção mais rápida do que o número daqueles estratos mais cuidados e virtuosos. Cita Greg: "Os irlandeses que não se cuidam, os sujos, os que não querem chegar mais alto, esses reproduzem-se como coelhos; o escocês frugal que reflecte, que se cuida, o ambicioso... esse casa mais tarde e deixa uma pequena descendência. Na eterna luta pela existência são os inferiores, as raças menos dotadas que dominam, não em virtude das suas boas qualidades, mas devido à força das suas falhas."

Na síntese final e nas últimas notas, destaca um contraste: "O ser humano experimenta com escrupuloso cuidado o carácter e a árvore genealógica dos seus equinos, dos bovinos ou dos caninos, antes mesmo de acasalar. Mas, quando chega ao seu próprio casamento, raramente ou nunca se dá a tanto trabalho... Com efeito, através da escolha (selecção) poderia fazer alguma coisa não simplesmente pela constituição corporal ou pelo aspecto da sua descendência, mas também no que diz respeito às suas características morais e intelectuais... Quando os mais inteligentes evitam o casamento e os negligentes se casam, os estratos mais medíocres da sociedade ambicionarão suplantar os melhores... Deve existir uma concorrência aberta para todas as pessoas e os capazes não devem ser impedidos nem pelas leis nem pelos costumes para terem o maior sucesso ou para criarem uma descendência mais numerosa. Louva, aliás, Esparta, onde estava prescrito que todas as crianças fossem analisadas após o parto: as mais bem constituídas e as mais fortes eram preservadas, as outras eram abandonadas à morte.

3.Não é esse todo o pensamento de Darwin. Entre as citações referidas também se pode ler a seguinte: "A ajuda que nós sentimos e que somos levados a dedicar aos mais necessitados é sobretudo o resultado do instinto de não impedir a simpatia, de não desprezar a porção mais preciosa da nossa natureza."

Seja como for, por enquanto, mais tarde ou mais cedo, tanto os mais fracos como os mais fortes sucumbem todos à morte. Só existem cadáveres adiados. Seria criminoso, no entanto, servir-se dessa verificação para não fazer recuar, até onde seja possível com todos os recursos científicos e técnicos, a doença, o sofrimento e a morte.
É evidente que a vida humana é biológica. A humanidade desta vida revela-se, porém, na sua necessidade de laços, de reconhecimento, de afecto. Só se pode entender a vida humana como relação. Quando se trata de familiares ou amigos, durante algum tempo, procuramos a sua sobrevivência em nós. Mas nós também morreremos. É bom salvaguardar o futuro da espécie. Será que as pessoas, na originalidade de cada uma, não contam? Mas onde haverá memória para tanta gente? A inimaginável ressurreição parece-me uma ideia justa.

No meio do sofrimento, Cristo deixou uma consolação: alegrai-vos porque os vossos nomes estão inscritos no coração de Deus.
In Públ
ico

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