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Frei Bento e a nova enciclica

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1 Frei Bento e a nova enciclica em Dom 12 Jul - 12:42

Caritas in Veritate: algo de novo?
Frei Bento Domingues, O.P. - 20090712
O que a encíclica de Bento XVI trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos1.O título da terceira encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate - uma grande expressão da Nova Aliança, abertura do coração e da inteligência -, não precisa de grande tradução, mesmo se o latim, em Portugal, se tenha tornado especialização de poucos. É de temática social e inscreve-se numa tradição que remonta à Rerum Novarum (1891) de Leão XIII, que teve uma posteridade fecunda no século XX. A última tinha sido a Centesimus annus (1991) de João Paulo II, para celebrar esses cem anos em que muita água correu por baixo e por cima das pontes. Entretanto, também João Paulo II tinha publicado a Sollicitudo rei socialis (1987) para celebrar a inovadora Populorum Progressio (1967) de Paulo VI, preparada pelo padre Louis-Joseph Lebret, O.P., fundador do movimento Economie et Humanisme. Respondia aos apelos da Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado por João XXIII.
A chamada Doutrina Social da Igreja (DSI) é, de facto, a Doutrina Social dos Papas. Não se identifica com os percursos dos "cristãos pensadores do social" - como lhes chamou e os descreveu Yves Calvez -, embora tenham sido eles que, de modo independente, animaram e alargaram os grandes debates desta área no catolicismo.
João Paulo II tinha sublinhado que a DSI não é uma "terceira via" entre capitalismo liberalista e colectivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa a outras soluções menos radicalmente contrapostas: constitui, por si mesma, uma categoria de natureza teológica (SRS 41).

2.A Caritas in Veritate de Bento XVI é um claro exemplo dessa opção. Embora procure ser uma mensagem para o mundo, essa característica nunca poderá ser bem entendida fora da expressão católica da fé cristã. O Papa apostou em não deixar nenhum aspecto na sombra, talvez para não multiplicar encíclicas, como fazia o seu predecessor. Apesar de muito noticiada nos meios de comunicação, não tem garantia de muitos leitores.
O seu grande marco é a Populorum Progressio de Paulo VI, mas existe para dizer que já não estamos no mesmo mundo e que a profundidade e a extensão da crise actual exige à Igreja uma nova lucidez, pois, como se diz no Evangelho, se for um cego a conduzir outro cego, caem ambos no buraco. Isto não significa que os Papas possam dispensar as ciências para caracterizar os fenómenos e disponham de competência própria para responder à velocidade das mudanças, num "mundo sem regras" (A. Maalouf).
O seu ponto de vista é teológico, mas não defende uma teocracia. Bento XVI não é um fundamentalista nem um ateu. Para ele, "razão e fé ajudam-se mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem: fascinada pela pura tecnologia, a razão sem a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência, enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas" (n.º 74). Ganhamos com a aliança entre as ciências e a caridade: "Vista a complexidade dos problemas, é óbvio que as várias disciplinas devem colaborar através de uma ordenada interdisciplinaridade. A caridade não exclui o saber, antes reclama-o, promove-o e anima-o a partir de dentro. O saber nunca é obra apenas da inteligência; pode, sem dúvida, ser reduzido a cálculo e a experiência, mas se quer ser sapiência capaz de orientar o homem à luz dos princípios primeiros e dos seus fins últimos, deve ser "temperado" com o "sal" da caridade. A acção é cega sem o saber e este é estéril sem o amor. De facto, aquele que está animado de verdadeira caridade é engenhoso em descobrir as causas da miséria, encontrar os meios de a combater e vencê-la resolutamente" (n.º 30).

3.A mútua inclusão da economia e da ética ocupa o centro da encíclica. O grande desafio que temos diante de nós - resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise económico-financeira - é mostrar, a nível tanto de pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser esquecidos nem debilitados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade (n.º 36).
Não existe neutralidade ética nas decisões económicas: a angariação dos recursos, os financiamentos, a produção, o consumo e todas as outras fases do ciclo económico têm inevitavelmente implicações morais (n.º 37).
Não toquei, nem ao de leve, na maioria dos temas abordados nesta encíclica. Desejo-lhe muitos leitores e muito debate. O que ela trouxe de novo é a atenção nova a problemas novos e que exigem, como diz A. Maalouf, "uma visão totalmente diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura, da religião, da História" e também da teologi
a.

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