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Fé e cabeça vazia Frei Bento - 11-04-2010

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Fé e cabeça vazia
Frei Bento - 11-04-2010
A fé não é um calmante, é um excitante, um santo desassossego. Crer não é ver. É desejo de ver1.Alguns leitores, por razões diferentes, estranharam que eu tivesse escrito que "a hierarquia não é a Igreja. A hierarquia é um serviço indispensável à Igreja, na Igreja de todos. Por outro lado, o Papa é o bispo de Roma, não é o bispo de todas as dioceses católicas. A responsabilidade pela vida da Igreja, vida do Espírito de Cristo, é colegial. A "papolatria" é uma doença que faz mal ao Papa, aos bispos, aos padres e, sobretudo, ao povo cristão".

Um texto, uma vez publicado, está exposto à livre interpretação. Não pretendo defender o que escrevi. Recuso, apenas, que possa fazer parte da campanha internacional contra o Papa e os bispos. Cabe-me acrescentar que se trata de algo fundamental no Novo Testamento, transmitido por S. Marcos, S. Mateus e S. Lucas: "Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos" (Mc 10, 42-45 e par.).

A Igreja deve ser uma rede de fraternidades. S. Mateus colocou na boca de Jesus o seguinte imperativo: "Quanto a vós, não vos deixeis tratar por "mestres", pois um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos" (Mt 23, Cool.

Santo Agostinho repetia aos seus fiéis: "Para vós sou bispo, convosco sou cristão; pecador como vós e, como vós, batendo no peito; ovelha como vós sob o cajado do único Pastor." Dos concílios do século IV e V datam fórmulas famosas: "O que deve ser posto à frente de todos, deve ser escolhido por todos; que não seja imposto nenhum bispo contra a vontade do povo."

O Papa Celestino I (380-432) escrevia aos bispos de Narbonnaise: "Distingamo-nos dos outros pela ciência, não pelos vestidos; pelos nossos propósitos, não pelo género de vida" (1).

2.Feito este esclarecimento, volto-me para um título que, nesta Páscoa, surgiu no DN (04.04.2010) e que alguns julgaram surpreendente: "Um quarto dos portugueses não crê na vida eterna." O subtítulo, "Ressurreição", precisava: entre eles estão 10% de católicos que vão à missa com regularidade, ou seja, 250 mil são católicos praticantes, e também 26% de prática ocasional.

Não podendo comentar esses números - não tenho, à mão, o inquérito atribuído à socióloga da Universidade do Porto, Helena Vilaça -, ocorre-me uma pergunta: tanto aqueles que dizem acreditar na ressurreição e na vida eterna como os que dizem não acreditar, o que será que os leva a fazer tais afirmações ou negações?

Quando escuto certas homilias e declarações sobre Deus, Jesus Cristo, vida eterna, ressurreição, céu, inferno, purgatório, pecado e graça, etc., digo para mim mesmo: eu não acredito em nada disso, ou melhor, dessa maneira não posso acreditar, tais são as evocações absurdas que suscitam! Noutros contextos, porém, essas palavras "abrem-me todos os céus e fecham-me todos os infernos".



3.S. Tomás de Aquino tomou do filósofo Plotino (205-270) uma expressão que se tornou emblemática de toda a sua teologia: "De Deus, não sabemos o que Ele é, mas só o que Ele não é." Em si mesmo, é-nos completamente desconhecido. O que dizemos de positivo a respeito do Mistério, excesso de toda a perfeição, deve ser corrigido por negações que cortem qualquer possibilidade de idolatria, imagens dos nossos desejos ou medos.

Acredito em Jesus Cristo, mas é precisamente Ele que me remete para o insondável Mistério de Deus que não cabe em nenhum conceito, que a linguagem metafórica apenas pode sugerir e que não pode ser anexado por ninguém, por nenhum povo, por nenhuma religião.

Mesmo em relação a Jesus Cristo, só podemos acreditar interpretando. O terminal da adesão da fé cristã não são os artigos do Credo, mas a realidade insondável do divino para onde apontam. De Deus tanto mais sabemos quanto mais nos convencermos de que está sempre para além de tudo o que sabemos.

No entanto, por mais que o silêncio honre a Deus, o ser humano crente não consegue renunciar à ousadia de pensar, não só para testemunhar as suas convicções, num determinado contexto cultural, mas porque, não podendo crer sem interpretar, o próprio acto de fé é vivido como cogitação (co-agitação). Não podemos renunciar a pensar, a procurar saber como é que é verdade aquilo que acreditamos ser verdade. Sem isso, podemos proclamar, sinceramente, o Credo, mas ficar de cabeça vazia. É uma tarefa sem fim. A fé não é um calmante, é um excitante, um santo desassossego. Crer não é ver. É desejo de ver, é caminho de todas as energias espirituais do ser humano. É por isso que a linguagem dos místicos não envelhece como a dos conceitos catequéticos e teológicos, muitas vezes mortos à nascença.

Os pastores da Igreja não se devem alegrar nem assustar com as afirmações ou negações da fé anunciadas pelas estatísticas e pelos meios de comunicação. A sua preocupação deve centrar-se na qualidade das experiências cristãs, na linguagem que as exprime e na inteligência da fé no interior da cultura de cada época e de cada mundo.

(1) Cf. Yves Congar, O.P., Igreja serva e pobre, Logos, Lisboa, 1964, pp. 51-67.


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