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Deus não sabe como se chama Frei Bento - 30-05-2010

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Deus não sabe como se chama
Frei Bento - 30-05-2010
Se o cristianismo não aceita um mundo sem Deus, também não aceita um Deus sem mundo, sem os seres humanos1. Os católicos celebram, hoje, a festa da Santíssima Trindade. É evocada, todos os anos, nestas crónicas, embora saiba que a maioria dos portugueses só a recorda numa expressão de teimosia: "Nem que caia o Carmo e a Trindade!" O próprio I. Kant pensa que dela "não se tira, definitivamente, nada de importante para a prática".

Os teólogos orientais, no concílio Vaticano II, queixaram-se do eclipse da Trindade na eclesiologia do Ocidente e das suas nefastas consequências, esquecendo a importância da "união nas diferenças". É verdade que a concepção abstracta de Deus, um certo deísmo reinante na modernidade, a necessidade de responder ao ateísmo e à morte cultural de Deus, assim como a longa separação da teologia oriental, podiam, em parte, explicar esse eclipse. Se já era difícil encontrar caminhos para a afirmação de Deus, mais valia fazer de conta que era possível ser cristão sem ter de se preocupar com essas elucubrações. As explicações que se desenvolveram no Ocidente - desde Tertuliano, passando pelas subtilezas de Santo Agostinho - eram viagens conceptuais pela interioridade de Deus que só não cansavam os grandes metafísicos ou os que se divertiam num jogo de conceitos. Os teólogos andavam por um lado, os místicos por outro e o povo cristão, indiferente a uns e outros, alimentava-se de devoções, sobretudo marianas.

Não basta dizer que a afirmação trinitária de Deus pertence à identidade cristã, repetindo distraidamente as fórmulas trinitárias do Novo Testamento inseridas na liturgia, começando ou finalizando todas as celebrações em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco. É preciso mostrar de que modo.



2.A existência histórica de Jesus foi muito breve, mas ele não morreu de doença ou de acidente. Foi morto por sentença de tribunal, devido ao perigo que as autoridades religiosas e políticas viram no que ele dizia e fazia. O mundo em que nasceu e cresceu era feito de exclusões sociais, económicas, políticas e religiosas que ele considerava intoleráveis. A companhia dos excluídos, sobretudo dos classificados como pecadores, desqualificava-o sob todos os pontos de vista. A sua pregação, porém, reforçava as suas opções: Não vim chamar os justos, mas os pecadores, isto é, os que vós considerais pecadores (Mc 2, 17). Todo o mal que existia era atribuído a um pecado evidente ou oculto.

Jesus, pelo contrário, partia da convicção de que a nossa vida está inscrita no coração de Deus e a nossa tarefa consiste em inscrever os outros, mesmo os próprios inimigos, na trama da nossa vida. Porquê? Porque um só é o nosso Pai e nós somos todos irmãos (Mt 23, 8-9).

No entanto, as suas palavras e os seus gestos ficaram desautorizados pela morte na cruz. Se Deus estivesse com ele, aquilo não podia acontecer. Um messias crucificado é uma contradição nos termos. Os discípulos, diante desse facto, abandonaram-no. Misteriosamente, pouco tempo depois, passaram a dizer que ele estava mais vivo do que nunca. Vivia em Deus e estava connosco até ao fim dos tempos. Confessaram que foi a acção do Espírito Santo e a persistência das mulheres que os levaram à Ressurreição. Na releitura que fizeram do percurso terrestre de Jesus, concluíram que, afinal, tudo tinha começado com uma voz e um impulso do Céu que o levara a abandonar o caminho de João Baptista. Mais ainda, sem a ligação filial a Deus e o Sopro divino, era impossível entender o percurso e a identidade de Jesus.

S. Paulo, nas suas Cartas, de muitas e diversas maneiras, vai transferir essa identidade para nós que vivemos num mundo em dores de parto (Rm Cool, pois Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que, em nós, clama "Abba, Pai!" (Gal 4, 6).

Se o cristianismo não aceita um mundo sem Deus, também não aceita um Deus sem mundo, sem os seres humanos.



3. Nunca saberemos falar destas realidades. A fé em Deus não pode passar sem mediações e representações, sob pena de se tornar cega e sem conteúdo. Não podemos dispensar as imagens, sejam pinturas ou esculturas fora da mente ou produtos da imaginação dentro dela. No entanto, como dizia C. S. Lewis, as imagens do Santo transformam-se facilmente em santas, sacrossantas, sem o serem, isto é, em ídolos. Esquecemos que as nossas ideias de divindade não são divinas. A ideia de Deus tem de ser, continuamente, despedaçada e Ele próprio se encarrega de o fazer. É o grande iconoclasta. Moisés, ao querer apanhar Deus na rede de um nome (Êxodo 3), deu-se conta que Deus, como no aforismo de Teixeira de Pascoaes, não sabe como se chama.

Em resposta ao mandamento "Não farás imagens de Deus", os muçulmanos, sob o ponto de vista material, obedecem-lhe e os hebreus ainda mais. Os jainistas ultrapassam-nos. Pensam que o nosso cérebro, pobre e limitado, nem sequer nele pode pensar. O silêncio da mente e dos lábios é a sua profissão de fé no Absoluto.

Quando percorremos as peripécias da história das imagens de Deus na arte (1), mais nos convencemos que só no rosto de Jesus Cristo, rosto do homem e de Deus desfigurados, evocamos misteriosamente a imagem do Eterno, do Deus invisível.

(1) François Boespflug, Dieu et ses images. Une histoire de l"Éternel dans 1"art, Bavard, Paris, 2008
in Público
[b]

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