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O que faz falta? Pensar por Pe ANSELMO BORGES

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Há na Lituânia - talvez também porque é um país com imenso sofrimento ao longo da história - umas estátuas, de tamanho diferente, do "Cristo pensador". É um Cristo sentado, com a cabeça levemente inclinada, de olhos fechados e com a mão encostada à face, precisamente na atitude própria do homem que pensa. Pensar vem do latim pensare, que significa pesar (razões), ponderar, examinar, avaliar, meditar e também pagar.

Em Portugal, não há muita tradição de pensar, sobretudo pensar criticamente. Talvez o clima nos arraste mais para o exterior. A própria Igreja pode ter responsabilidades, mesmo que indirectas, no facto: um pensamento dogmático, a doutrina transmitida por via autoritativa e sem necessidade de argumentação, não houve Reforma. Depois, nos últimos anos, a aparente situação de riqueza levou ao estonteamento e à fuga do pensar. Assim, de repente, vemo-nos num estado lastimoso e na incógnita asfixiante do futuro.
Há tempos, quando se abriram indiscriminadamente Universidades e instituições de ensino superior, alguém pensou nas consequências? Quanto ao ensino em geral, alguém pensou aonde nos levariam o experimentalismo constante e o facilitismo? Já alguém pensou em como foi possível a Justiça ter chegado aonde chegou e nas reformas necessárias para torná-la fiável, célere e eficaz? Em que é que se estava a pensar, quando se deu a possibilidade da reforma aos 45-50 anos?

Do pior foi a indicação de sinais de que era possível vivermos todos acima das nossas possibilidades e sem esforço nem trabalho. Afinal, em que pensavam os Bancos, quando faziam "engolir" cartões de crédito? Até férias e fatos a crédito aconteciam! Foi a ilusão e o desvario.

Houve uma avaliação racional dos investimentos necessários em função do desenvolvimento do País e não de interesses instalados? Quando se pensa, por exemplo, no labirinto de jogos para finalmente se concluir a localização do novo aeroporto, que devemos concluir? E...

O decisivo era ganhar eleições. Então, prometeu-se o que se sabia que não era possível cumprir. Mas lá estavam os interesses e as clientelas. O pensar a longo prazo, como estadistas, ficou bloqueado. Pode aliás perguntar-se: quando existiu?

O dinheiro corria a jorros. As reformas estruturais foram sendo adiadas. O número de funcionários cresceu. O que restou é um País pobre com alguns cada vez mais ricos. O que vai ser dos mais carenciados e desfavorecidos? Mas ai de nós se não pensarmos que é necessário pensar que os pobres não podem ser abandonados à sua sorte e que há um mínimo de Estado social a salvaguardar. Aconteceu o caricato. Ainda há meses, se prometia e jurava que não haveria aumento de impostos e havia dinheiro para isto e para aquilo, para este e para o outro mundo. De repente, quase cada dia se anuncia um novo imposto e um novo corte. E o mais dramático: alguém nos pode dizer, depois de pensar e reflectir e avaliar razões, o que vai acontecer e qual é o projecto de futuro?

O País caminha para becos sem saída. E o que mais dói: ninguém é responsabilizado e não se vê alguém a assumir responsabilidades. No fundo, somos todos responsáveis, mas as responsabilidades não são todas iguais. Não admira, pois, que as estatísticas digam que os portugueses já não confiam nas instituições e nomeadamente nos partidos e nos políticos. Significativamente, de pensare, em latim, também vem o nosso penso. Assim, dizemos: pensar uma ferida - aplicar a uma ferida, numa pessoa, animal ou instituição, o curativo, os remédios necessários. O que faz falta é sentarmo-nos para pensar, reflectir, projectar um futuro com futuro.
O pensar exige esforço, tenacidade, mas sem ele não se vive humanamente. Aliás, é nos tempos mais difíceis que se ergue a urgência de pensar. Julgo que foi Cícero que escreveu que todo o pensador é melancólico e, como repetia o filósofo Ernst Bloch: "Not lehrt denken", é a necessidade que ensina a pensar. É fundamentalmente aqui que temos de encontrar a nossa cura.

In DN
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