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Uma Espanha pouco católica Frei Bento - 14-11-2010

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Uma Espanha pouco católica
Frei Bento - 14-11-2010
As viagens do Papa a Portugal e a Espanha foram muito diferentes1. Uma fábula do jornal El Mundo anuncia que, em 2023, Espanha e Portugal estarão unidos na Ibéria com três capitais: Lisboa será a capital legislativa, Madrid, a executiva, e Barcelona, a judicial. Seja qual for a configuração dessa futura Ibéria, parece-me que já é tempo de acabar com as seculares desconfianças mútuas mediante uma aliança entre a doce sabedoria lusitana e o desembaraço espanhol. Não a desejo para nos defendermos da Europa, mas para a tornar mais coesa, impedindo que alguns países mais ricos esqueçam o sentido de uma união solidária.

Aquilo a que se chama o temperamento espanhol e a divisão gerada, nos anos 30 do século passado, com a guerra civil continuam a despertar receios naqueles que repetem um velho ditado: "De Espanha, nem bom vento nem bom casamento." É preferível aceitar que não temos o mesmo temperamento, nem a mesma arte de viver. Ainda agora, as viagens do Papa a Portugal e a Espanha foram muito diferentes. Bento XVI adoptou, em Portugal, uma retórica discursiva e uma atitude de simpatia, que encontrou no povo português e nos governantes uma resposta de calorosa hospitalidade, excedendo as simples regras da boa diplomacia. Em Espanha, aconteceu precisamente o contrário. Os meios de comunicação sublinharam, logo na intervenção do Papa durante a viagem de avião, um clima de hostilidade em relação à situação espanhola, que se julga marcada por uma laicidade, um anticlericalismo, um secularismo forte e agressivo, invocando os anos 30.

O resultado, tanto em Santiago de Compostela como em Barcelona, foi um acolhimento bastante restrito ao Papa e as manifestações hostis e de mau gosto de diversos grupos.



2. Roma sabe que a Espanha já é pouco católica. Os esforços para retomar o nacional-catolicismo estão votados ao fracasso. Durante a transição da ditadura para o regime democrático, o cardeal Tarancón, como presidente da Conferência Episcopal - cargo que exerceu desde 1971 até que se demitiu em 1981 -, desempenhou um papel conciliador entre as "duas Espanhas" marcadas pela guerra civil que, depois, a Conferência Episcopal não soube manter.

Os actuais governantes não são os "comecuras" que a extrema-direita gosta de fazer crer. A realidade de hoje já não é a dos anos 30. Por outro lado, a Espanha do século XXI não cancelou nenhum dos privilégios eclesiásticos e mantém uma situação de paraíso fiscal absoluto com excepção do IVA. Mais ainda, diz Juan Bedoya, só o Governo Zapatero cedeu a uma petição episcopal que os presidentes dos governos anteriores, de direita, de centro ou de esquerda, nunca atenderam. Depois de anos de fracasso do chamado imposto religioso - cada religião seja financiada pelos seus fiéis -, o executivo socialista estabeleceu, em 2007, o generoso sistema de financiamento público da Igreja católica.

Apesar de tudo o que se tem dito da viagem do Papa a Espanha, os seus temas centrais - razão e fé e fé e beleza, além das questões em tomo da família - são estruturantes do pontificado de Bento XVI. Em sociedades democráticas e pluralistas, os católicos devem procurar a linha da frente da investigação científica e da reflexão filosófica que contribua para o enraizamento da fé na razão interrogante, vencendo as tentações fundamentalistas. Em Barcelona, atribuir o título de "basílica" à obra de arquitectura religiosa de Antoni Gaudí, a Sagrada Família, é reconhecer que a linguagem da beleza e a linguagem da fé podem exprimir-se na linguagem da modernidade. Em Portugal, o Papa não esqueceu que é da nossa própria vida que devemos fazer a obra mais bela. Gaudí fez as duas coisas.



3.O catolicismo, quando não vê reconhecidas as raízes cristãs da Europa, não se deve perder em ataques ao anticlericalismo e ao laicismo. Parece evidente que existe uma cultura dita "cristã", isto é, marcada pelas suas crenças, símbolos e rituais. Também é indiscutível que esta cultura impregnou a nossa civilização, a tal ponto que até os laicizados das nossas sociedades continuam marcados por uma herança cristã omnipresente no calendário, nas festas, nos edifícios, no património artístico, nas expressões populares. Não se pode concluir daqui, porém, que a cristandade tenha sido cristã em sentido profundo. Pergunta Frédéric Lenoir: como reconhecer a mensagem de Jesus no Direito Canónico, no moralismo estreito, na hierarquia eclesiástica piramidal, na multiplicação dos sacramentos, na luta sangrenta contra as heresias, no poder clerical sobre a sociedade? A cristandade é a beleza das catedrais, mas é também essas deformações do Evangelho.

Não basta, porém, repetir: "A cristandade está morta, viva o Evangelho!" A questão de fundo a que é preciso responder é outra: como construir uma relação nova entre a nossa sociedade e a tradição católica? A resposta deve excluir qualquer teimosia em perpetuar fórmulas passadas que já não correspondem à sociedade actual, que é pluralista, secularizada e incerta nos seus valores. O catolicismo deve reencontrar-se com a simbiose entre contemplação e acção, no sentido que lhe deu o historiador José Mattoso na conferência que encerrou o Congresso Internacional das Ordens e Congregações Religiosas.

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