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Não é o fim do mundo Frei Bento - 21-11-2010

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Não é o fim do mundo
Frei Bento - 21-11-2010
Aos grandes meios de comunicação não vão parar também os encenadores da suspeita transformada em juízo final1. Não é por ter sido muito repetida que a observação de G. K. Chesterton deixou de ser pertinente: "O mundo moderno está cheio de ideias cristãs que enlouqueceram." O discurso da crise omnipresente e omnipotente é a nova figura do discurso apocalíptico, da catástrofe para a qual qualquer remédio é sempre pior do que a doença.

O Apocalipse, livro do Novo Testamento, não é só uma tentativa de clarividência diante da desordem do mundo e da evidência do mal. Ao desencadear uma atitude contra a cegueira do presente, torna-se um livro de resistência ao niilismo. Nunca está tudo acabado. É preciso enxugar as lágrimas e ouvir a voz daquele que quer fazer novas todas as coisas - novos céus e nova terra - com Deus por companhia no seio da história do mundo (Ap 21-22). É um incitamento à vigilância, mas não cede ao pânico e interpela as Igrejas acomodadas: "Isto diz o Ámen, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da Criação de Deus: Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Quem dera que fosses frio ou quente! Assim, porque és morno - e não és frio nem quente - vou vomitar-te da minha boca." Este aviso severo do Espírito às Igrejas não é uma maldição: repreendo e educo todos aqueles que amo. Recobra, pois, o fervor e converte-te (Cf Ap 3, 14-20).



2.Outra ideia bíblica enlouquecida configura os profetas da desgraça, aqueles que só têm olhos para tudo o que corre mal, repetindo que o pior ainda está para vir. Aos grandes meios de comunicação não vão parar só os investigadores da verdade possível, mas também os encenadores da suspeita transformada em juízo final. São cegos para aquilo que, num país, é positivo, inovador, criativo. Ficam mal-dispostos quando há boas notícias. Sentem-se obrigados a minimizá-las, não vá isso distrair do seu tema preferido: nunca a seca foi tão longa, nunca tivemos cheias tão repentinas e devastadoras, nunca a insegurança foi tanta, etc.

Quando as coisas estão mais calmas, vem o terror nuclear, o buraco do ozono e permite-se que a bendita ecologia, em nome da salvação do planeta azul, seja transformada numa fonte de negócios escandalosos. No entanto, é impossível esquecer que o século XX não foi apenas um tempo de grandes avanços científicos e tecnológicos. Foi também o século de duas guerras mundiais, de milhões de vítimas do estalinismo e do nazismo, de massacres desde o Camboja até ao Ruanda.

A 25 de Janeiro de 1959, João XXIII surpreendeu o mundo com o anúncio de um Concílio Ecuménico. Foi convocado a 25 de Dezembro de 1961. Resistiu, até ao fim, àqueles que censuravam esta aventura do velho sonhador. No discurso de abertura do Vaticano II, a 11 de Outubro de 1962, enfrentou-os com alegria: "No exercício quotidiano do nosso ministério apostólico, chegam aos nossos ouvidos sugestões de almas, sem dúvida ardorosas no zelo, mas não dotadas de grande sentido da discrição e moderação. Nos tempos actuais, vêem apenas prevaricações e ruínas; vão repetindo que a época em que vivemos, comparada com as passadas, tem piorado; comportam-se como quem nada aprendeu da história, que é também mestra da vida, como se no tempo dos Concílios Ecuménicos precedentes tudo fosse triunfo completo da doutrina, da vida cristã e da justa liberdade da Igreja. Parece-nos que devemos discordar desses profetas das desgraças que anunciam acontecimentos sempre funestos, como se o fim do mundo estivesse próximo."

3. Tão inadequada é a imagem de um progresso contínuo e garantido da História como a do seu declínio irreversível. Da verificação de sentido na história humana não resulta a evidência de um sentido universal. Não está tudo previsto numa previdência e providência imanentes. No entanto, os cristãos sustentam, no seio de todas as obscuridades e contradições, um misterioso horizonte transcendente.

Esta convicção intima-os a não se perderem, de melancolia, a olhar para o céu que lhes roubou o mestre (Act 1, 11). Este é o tempo da missão da Igreja contra o fatalismo: a ressurreição é a linguagem que exprime a morte da morte. É o tempo do Espírito de Cristo que sopra com toda a liberdade, nas situações mais inesperadas, abrindo um futuro de inovação diante de todos os impasses. É o tempo dos possuídos desse espírito criador e recriador e não dos preguiçosos à espera que Cristo regresse e nos dispense dos trabalhos da história humana. S. Paulo deixou o recado, no domingo passado, na II Carta aos Tessalonicenses: "Quem não quiser trabalhar que não coma."

Bento XVI, no Angelus do mesmo dia, aproveitou a mesma carta para uma intervenção, não de profeta da desgraça, mas para um apelo à conversão, lembrando, ao chamado G20, a urgência de uma revisão profunda do modelo de desenvolvimento económico global de que já tinha falado na encíclica Caritas in Veritate. Aproveitando a festa das colheitas em Itália, chamou a atenção para a esquecida agricultura, não em sentido nostálgico, mas como recurso indispensável para vencer o desequilíbrio entre agricultura, indústria e serviços.

Perante a escandalosa distância entre riqueza e pobreza, a hierarquia da Igreja tem de retomar a grande Tradição cristã em torno da Ceia do Senhor, perguntando aos cristãos ricos: como é possível apresentar-se à comunhão eucarística vivendo em ruptura com os pobres?


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