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Bem-aventurada desconstrução Frei Bento - 30-01-2011

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Bem-aventurada desconstrução
Frei Bento - 30-01-2011
Jesus Cristo veio desconstruir as falsas evidências humanas e religiosas que nos roubam a alegria1. A crise significa coisas diferentes, segundo as situações, preocupações e interesses das pessoas e dos grupos. Aliás, como diz Paul Auster, "as nossas palavras já não correspondem ao que se passa no mundo". Também não é fácil saber o que se está, realmente, a passar, sobretudo, se escutarmos os oráculos das televisões. Dizem-me que a crise do capitalismo não passa de uma sua gripe sazonal a superar com uma razoável ética dos negócios. Nestes assuntos, continuo agnóstico e admira-me que o vasto mundo dos seus curandeiros saiba tão pouco acerca da prevenção deste género de catástrofes.

Num básico sentido antropológico, crise é o que há de mais natural. Os animais nascem prontos para enfrentar os desafios que os esperam. O ser humano, pelo contrário, leva muito tempo a formar-se no seio materno e aparece, incrivelmente, incapaz de poder e saber fazer pela vida. É, por natureza, um ser de relação e só em relações de amizade poderá ser feliz.

Se os outros animais nascem equipados, o ser humano aparece no mundo muito frágil, mas com recursos intelectuais, afectivos e instrumentais para desenhar e realizar o seu projecto de vida e saber superar fragilidades e crises.

Lembro estas banalidades para dizer o seguinte: o ser humano é responsável, não por desejar a felicidade, mas por encontrar os caminhos e os meios concretos, na situação concreta, para a realizar, para ser bem-aventurado. Na vida humana, sobretudo hoje, em que ela depende de tantos factores, todos os equilíbrios são precários. Como seres de conhecimento, desejo e paixões, a instabilidade real será a companheira da vida. Como dizia Santo Agostinho, é impossível encontrar quem não queira ser feliz. São mesmo as promessas de felicidade que fazem correr as pessoas. Como, porém, a esperança vive do prazer diferido, a tentação do prazer imediato, da vitória antes da corrida, leva muita gente para os caminhos das ilusões, de viver para além das possibilidades reais, no presente. Como a publicidade atiça os desejos mais desencontrados, transfere-se para o quotidiano a crença no milagre do crédito, dos jogos de azar ou da droga, a espiral da loucura. Diz a Imitação de Cristo que a vida, às vezes, até parece "uma torrente de eternas desgraças". Para Hegel, "os períodos de felicidade são como espaços vazios na crónica dos povos".

Esta conversa é muito abstracta, porque, na realidade, nascemos numa determinada época de uma determinada cultura, com muitas artes de entender, realizar e destruir a existência. Pela dificuldade em lhe dar o nome, chamamos à nossa cultura moderna pós-moderna, pós-industrial, digital etc. Como dizia Baudelaire, de forma enigmática, "a modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável".



2.Diante de tudo isso, nunca acabo de me espantar com a sabedoria inscrita na estrutura do ritual do Baptismo. Tudo começa por uma iluminação da inteligência, do imaginário religioso e mundano, povoados por falsas evidências, pelos labirintos do desejo, por modos de vida reconhecidos como prisões que importa desconstruir. Esse momento é o ponto de chegada de uma crise sobre o sentido da vida e o pressentimento de que é possível mudar. Não se trata de um processo abstracto: há um "mundo diabólico" que nos prende e ao qual é preciso dizer não e um mundo da verdadeira vida a que é preciso dizer sim; exorcizar o mal e aderir, de todo o coração, ao Evangelho de Jesus Cristo, como alma da própria alma. O Baptismo é a celebração dessa realidade, na água e no Espírito, fonte de uma nova criatura, cuja felicidade será a procura da felicidade dos outros, coração da verdadeira Igreja.



3.A celebração do Baptismo não é uma garantia de fidelidade. O cristão continua tentado a renegar o que abraçou e a precisar de conversão permanente. Este domingo é dedicado, precisamente, a retomar a desconstrução das falsas evidências acerca dos caminhos da felicidade, à descoberta e à construção de uma vida paradoxalmente feliz, sem publicidade enganosa. É o domingo das bem-aventuranças (Mt 5, 1-12).

Talvez nenhuma composição evangélica seja tão conhecida nem tão estudada como essa. Todas e cada uma das suas expressões foram examinadas em pormenor e postos em relevo todos os seus antecedentes no Antigo Testamento. Como diz o grande especialista Florentino Garcia Martínez (1), até agora não se conhecia nenhum texto judaico que proporcionasse um paralelo literário realmente próximo das bem-aventuranças de S. Mateus. O texto evangélico era, por isso, encarado como a conclusão de um longo processo de evolução literária. Acontece, porém, que na Cova 4 dos manuscritos de Qumran há um fragmento, recentemente publicado, com uma forma literária idêntica, embora não quanto ao conteúdo. Isto mostra que circulava um modelo literário, cujo pano de fundo judaico servia para várias composições. Esperou-se, muitas vezes em vão, encontrar, em Qumran, a origem dos textos do Novo Testamento.

Este exemplo, como outros, serve, porém, para mostrar o terreno concreto, no qual o cristianismo tem as suas raízes e como Jesus Cristo é o seu melhor fruto, aquele que veio desconstruir as falsas evidências humanas e religiosas que nos roubam a alegria.

(1) Los Hombres de Qumrán, Trotta, 1997
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