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O poço dos encontros Frei Bento - 27-03-2011

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O poço dos encontros
Frei Bento - 27-03-2011
Um poço foi sempre lugar de encontros, previstos e imprevistos1. Não vou retomar a denúncia, feita por Jesus de Nazaré, da incompatibilidade entre o reino de Deus e o reino do Dinheiro, aqui referida na preparação da Quaresma, embora continuemos dependentes da alta finança, do império dos mercados alheios a qualquer preocupação ética e ao sofrimento dos pobres.

Se Jesus, porém, "nada sabia de finanças" - os fariseus, amigos do dinheiro, riam-se dele (Lc 16) -, sabia muito do encontro e reconciliação de pessoas, religiões, culturas e povos mal amados. No Evangelho de S. João - o Quarto Evangelho - a identidade de Jesus foi reelaborada através de permanentes encontros, adesões, rupturas e novos horizontes que reflectem não só a vida das comunidades cristãs dos finais do século I, mas também o seu carácter inspirador para o futuro, mediante cenas e figuras para sempre exemplares (1).

Nicodemos é uma delas. É um fariseu membro do Sinédrio. Veio de noite, isto é, às escondidas, ter com Jesus à procura do essencial, sem saber bem o que isso poderia implicar. Jesus não lhe alimentou ilusões: "Tens de nascer de novo." O velho Nicodemos não vê como seria possível refazer a vida toda, mas Jesus brinca com ele: "És mestre em Israel e ignoras estas coisas?" Aparentemente, a conversa não levou a lado nenhum. Nicodemos ficou, no entanto, um seu discípulo clandestino que ainda lhe valeu nas discussões do Sinédrio e para ter um sepulcro decente (Jo 3; 7; 19). Pelo meio, saltou-se de Israel para o mundo: é ao mundo todo que Deus se entregou no seu próprio Filho.



2. Surge, depois, o encontro com uma mulher de muitas vidas, de um povo inimigo. Era samaritana. Note-se que os samaritanos eram considerados heréticos. O antagonismo entre judeus e samaritanos vinha de muito longe. Não aceitavam mais do que os cinco livros da Lei, construíram um santuário sobre o monte Garisim - uma afronta ao de Jerusalém -, onde prestavam culto a Deus. Os judeus tinham sempre dificuldades em passar, em paz, por esse território. Na reconstrução da cena, Jesus, cansado da viagem, vai sentar-se, sozinho, junto ao poço de Jacob, enquanto os discípulos foram arranjar comida.

Um poço foi sempre lugar de encontros, previstos e imprevistos. Aparece uma mulher e Jesus toma a iniciativa de lhe fazer um pedido: "Dá-me de beber!" A mulher fica espantada, não por lhe dirigir a palavra - ela até era de relacionamento excessivamente fácil -, mas por ele ser um judeu que pede auxílio a uma samaritana, à inimiga do povo de Israel. Belo pretexto para uma conversa sobre a água como metáfora: "Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz "Dá-me de beber", tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva." E aconteceu.

Aquela mulher é o símbolo de todas e de todos que andam à procura de um sentido que possa refazer a existência até ao fundo. De uma água passa-se para outra, para uma que jorra para a plenitude da vida; de uma situação matrimonial desastrada - já ia em cinco maridos e vivia com um homem que nem marido era -, Jesus não se detém aí e abre uma outra questão, a do culto da profundidade da vida em espírito e verdade. O templo e o culto que interessam não é o de Jerusalém nem o de Garisim ou de qualquer outra construção religiosa, mas o da transformação da vida. Esta mulher, que encontrou quem a entendeu, vai tornar-se a missionária de todo um povo. Como se diz na Missa de hoje: "Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher. Quando os samaritanos vieram ao encontro de Jesus, pediram-lhe que ficasse com eles. Ficou lá dois dias. Ao ouvi-lo, muitos acreditaram e diziam à mulher: "Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo."" Foi esta mulher e outra que vem depois, a Marta, que provocaram uma das mais importantes confissões cristológicas do Novo Testamento (Jo 4; 11).



3. Como dissemos, a ficção narrativa do Evangelho de João parte de uma situação da comunidade cristã, na qual, mediante a apresentação do diálogo de Jesus com João Baptista, Nicodemos, samaritanos e gregos, se diz, no final do primeiro século, que o destino universal do Evangelho já está em processo de realização. Jesus nasce num povo, mas a sua identidade é construída em relações plurais, porque o seu Deus não é uma divindade tribal. Vive, ainda que ignorado, no coração de todos os seres humanos, acolhido ou rejeitado.

Ainda hoje, a missão da Igreja consiste em encontrar espaços para escutar e acolher as grandes interrogações da existência humana. Não de forma genérica, mas em concreto, segundo os indicadores de cada tempo e lugar, seja qual for o mundo e as modalidades em que se manifestam.

Em Paris - mas para continuar em vários países - realizou-se, na passada semana, por iniciativa do Conselho Pontifício da Cultura, a primeira grande iniciativa sob a metáfora "Pátio dos gentios". Destina-se a abater as barreiras que a história criou entre crentes e não crentes, encerrados num isolamento sacro ou laico, ignorando-se, ou, pior ainda, vivendo em desprezo mútuo e com acusações recíprocas. Os fundamentalistas, de ambos os lados, gostariam que assim continuasse. É preciso não lhes fazer a vontade.



(1) Yves-Marie Blanchard, Os escritos joaninos, "Cadernos Bíblicos" 108, Difusora Bíblica, 2011

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