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Uma grande polémica da Quaresma Frei Bento - 03-04-2011

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Uma grande polémica da Quaresma
Frei Bento - 03-04-2011

Jesus revelou-se um excelente oftalmologista das instituições, tanto religiosas como laicas

1. Diante dos problemas e dificuldades, individuais ou colectivos, um milagre dá sempre jeito. Ainda hoje, é o que muita gente procura na religião. Nas aflições extremas, quem o não desejaria?

A esse respeito, no entanto, o comportamento atribuído a Jesus é muito estranho. As narrativas do Novo Testamento estão semeadas de milagres, a ponto de os padres, nas homilias, ficarem sem saber que dizer. Seja qual for a explicação científica desses gestos, ao IV Evangelho só lhe interessa o seu valor simbólico. Não são um método ou receita para resolver problemas deste mundo, nem entram em competição com ciências e técnicas, próprias da investigação humana. São intervenções para exprimir ou desencadear o que nenhuma ciência ou técnica pode explicar ou resolver: a transformação das nossas relações com Deus, connosco e com os outros.

Na Missa deste domingo, surge uma notável polémica, de temática religiosa, cheia de humor e ironia. Seria bom abrir a Bíblia e deliciar-se com a sua construção (Jo 9). Começa por manifestar o gosto que Jesus tinha em contrariar ideias feitas, por mais sagradas que se apresentassem: "Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe: "Rabi, quem pecou, ele ou os seus pais, para que nascesse cego?" Jesus respondeu: "Nem ele nem os seus pais, mas para que nele se manifestem as obras de Deus. Temos de realizar as obras d"Aquele que me enviou enquanto é dia. Vem a noite, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo". Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, aplicou-a sobre os olhos do cego e disse-lhe: "Vai lavar-te na piscina de Siloé" - que quer dizer "Enviado". Ele foi, lavou-se e regressou a ver".

Atribuir uma doença ou deficiência congénita a castigo de Deus, ofendido pelo pecado, era a expressão da cegueira religiosa - a noite - na qual os seus discípulos tinham sido educados e que Jesus combateu: falar do mal, como castigo divino, é o mal supremo. É a saúde e a alegria dos seres humanos que dão glória a Deus, não a sua humilhação. Esta é a grande convicção do Evangelho de S. João (15 e 16). A sua primeira Carta resume o sentido da sua obra: "Isto vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa".



2. A história poderia ter ficado por aí, mas não ficou: complicou-se. Jesus tinha cometido um erro fatal: "Era sábado o dia em que Jesus fizera lama e lhe abrira os olhos". Diziam, então, alguns dos fariseus: Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado. Outros, porém, replicavam: "Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?" Havia, pois, divisão entre eles".

Se, antes, Jesus combateu, com o seu gesto, uma falsa ideia teológica, agora, atacou a instituição mais religiosa do seu povo: a estrita observância do sábado, a tal ponto sacralizada que até, segundo uma narrativa da Criação, puseram Deus a descansar nesse dia. Uma instituição genial e um ponto alto da civilização. O ser humano não é só Homo faber, máquina de trabalho. Precisa de tempo para a liberdade, para a festa e para a criatividade.

Por desgraça - eis a segunda lição do texto -, até as melhores instituições se podem transformar no que há de pior. Esse tempo para a liberdade foi transformado num colete-de-forças, numa prisão. Tornara-se o dia dos interditos: tudo estava proibido em nome de Deus. Jesus dirá um dia que, naquela religião, os animais tinham mais sorte do que os humanos (Lc 13).

Nas narrativas do Novo Testamento, sobretudo em S. João, Jesus é apresentado como tendo um prazer especial em violar o sábado, provocando a ira dos outros judeus. Contrariando a própria narrativa da Criação, atrevia-se a dizer: "Meu Pai trabalha sempre e eu também" (Jo 5). Estava a preparar a sua sentença de morte, diz o texto.



3. É muito possível que a redacção desta passagem de S. João seja reflexo dos conflitos entre a comunidade judaica dos finais do século I e a comunidade cristã. Os pais do miraculado recusam-se a responder pelo filho: "Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; não sabemos como é que agora vê, nem quem o pôs a ver. Perguntai-lhe a ele. Já tem idade para falar de si. Os pais responderam assim por terem receio dos judeus, pois estes já tinham combinado expulsar da sinagoga quem confessasse que Jesus era o Messias". Por esta razão, expulsaram o filho da sinagoga.

O evangelista pôs na boca de Jesus: "Vim a este mundo, para que os que não vêem vejam e os que julgam que vêem fiquem cegos". Como se diz em português: não há pior cego do que aquele que não quer ver.

Este texto de S. João é de grande alcance humano e religioso acerca do papel das instituições. Os seres humanos não podem viver ao sabor dos impulsos de cada momento. São as instituições justas que servem a liberdade e a reciprocidade social; é o capricho que as destrói. Não podem, porém, ser sacralizadas, seja em nome de quem for. São criações humanas para a humanização da vida em sociedade. Daí, a sentença de Cristo: o ser humano não é feito para as instituições, por mais sagradas que se apresentem ("sábado"), mas as instituições para o ser humano (Mc 2,27).

Jesus revelou-se um excelente oftalmologista das instituições, tanto religiosas como laicas.


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