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Consequências antecipadas do Pentecostes Frei Bento - 01-05-2011

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Consequências antecipadas do Pentecostes
Frei Bento - 01-05-2011
Péssimo é que se tenha perdido o sentido do bem comum e o primado do destino universal dos bens 1. Como terão vivido e estarão a viver os católicos portugueses a vinda da troika (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu), a Semana Santa, o 25 de Abril, as diatribes contra os políticos feita pelos políticos mais antigos e mais novos que temos e, agora, as polémicas em torno da beatificação de João Paulo II? Para não cair no costume que muitos têm de dizer que os portugueses ou os católicos pensam assim e assado - sem os consultar - e, como não disponho de nenhuma sondagem para responder à interrogação, passo adiante. De qualquer modo, este II Domingo da Páscoa antecipa o Pentecostes e os seus efeitos que podem ter muito a ver com alguns aspectos da nossa situação religiosa, social e económica.

O escritor S. Lucas dedicou uma obra de cuidada investigação ao percurso de Jesus e aos começos do cristianismo, em dois volumes que, tradicionalmente, eram editados em separado. A Fragmenta Editorial (Barcelona) teve a feliz ideia de reunir, numa só publicação, a obra completa, em grego e catalão. Tem outro sabor. Até à Páscoa, lemos o primeiro. Agora, andamos a ler o segundo, chamado Actos dos Apóstolos, uma obra que nunca foi terminada e que não será, até aos fins dos tempos. Os cristianismos continuam a fazer a sua história e a escrevê-la.



2. O fragmento escolhido para este II Domingo da Páscoa é, como apontámos, uma antecipação do Pentecostes: "Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fracção do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, toda a gente se enchia de temor. Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam propriedades e bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um. Todos os dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração, louvando a Deus e gozando da simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava todos os dias o número dos que deviam salvar-se" (Act 2, 42-47).

Estamos nos começos e trata-se de um primeiro sumário da vida da Igreja. Outros virão depois. Neste, somos informados, segundo a tradição em que Lucas se inspira e bebe, de uma continuidade e de uma ruptura, mas sem aquelas que, depois, irão deflagrar entre judeus cristãos, residentes em Jerusalém, e os de cultura helenista, sem adiantar já as controvérsias que irão conduzir à convocação de um concílio em Jerusalém (Act 15). Esta Igreja ainda é de judeus cristãos que frequentavam o Templo, mas que também já celebravam, nas suas casas, a Eucaristia, chamada "fracção do pão".

Uma primeira lição se impõe: Jesus era judeu e judeus eram os que formavam as primeiras comunidades cristãs. Frequentavam o Templo e as sinagogas como os outros. O próprio Paulo era pelas sinagogas que começava a sua pregação, embora estas também exercessem atracção sobre não judeus, os "tementes a Deus". Mesmo as querelas posteriores à destruição do Templo, no ano 70 - sobretudo nas expressões que assumem no Evangelho de S. Mateus -, eram controvérsias de famílias desavindas. A separação progressiva da Sinagoga e da Igreja cristã, na sua pluralidade, deve-se, sobretudo, ao acolhimento, nesta, dos gentios que as Cartas de Paulo e os Actos dos Apóstolos testemunham de forma dramática (1).

Pelo fragmento apontado, vemos que a pertença religiosa plural era compatível com a identidade cristã: frequentar o Templo ou a Sinagoga, o ensino dos apóstolos e a celebração da Eucaristia. É uma questão, ainda hoje, em aberto: será possível viver a identidade cristã e comungar das realidades de outras religiões? Raimon Panikkar sustenta que é possível ter uma religiosidade pessoal e integrar, com maior ou menor harmonia, pontos fortes de diversas tradições religiosas. Confessa que, em mais de meio século de experiência pessoal, depois de ter passado um terço da sua vida na Índia e o resto no Ocidente, descobriu-se hindu, num ambiente budista, sem nunca deixar de ser cristão (2). Como diz José Augusto Mourão, num recente livro de homilias, em linguagem marcadamente poética e aforística, "não será melhor a ponte, o laço, o anel que liga e transmuda as vozes?" (3).



3. A Comunidade de Qumran, tornada célebre em 1947 com a descoberta de manuscritos antigos que ficaram conhecidos como os Manuscritos do Mar Morto, impunha a partilha dos bens. Nos Actos dos Apóstolos, no fragmento que transcrevemos e de modo mais detalhado no capítulo 4, também é testemunhada a partilha dos bens nas comunidades cristãs. A diferença é de monta: nestas, a partilha é voluntária e talvez nunca tenha sido geral. No entanto, é essa partilha que serve a Lucas para dizer que o Reino de Deus já começou, não só no coração das pessoas, mas nas suas obras, no seu comportamento social. Hoje, distinguimos o que é público e o que é privado. Não está mal. Péssimo é que se tenha perdido o sentido do bem comum e o primado do destino universal dos bens. O resultado contraria o espírito cristão: poucos com quase tudo e muitos com quase nada; uns à mesa farta e vida luxuosa e outros à porta, miseráveis. Não seria mal que o FMI, a CE, o BCE e as agências de rating também ganhassem juízo.

1) L. Michael White, De Jesús al Cristianismo. El Nuevo Testamento y a Fe Cristiana: Un Proceso de cuatro Generaciones, Verbo Divino, Estella, 2007

2) Pluralisme i Interculturalitat, Fragmenta Editorial, Barcelona, 2010, pp. 106-107

3) Quem Vigia o Vento não Semeia, Pedra Angular, Lisboa, 2011.

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