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arrogância teológica - Frei Bento

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Frei Bento Domingues – 20080427(In Público)

No campo da teologia, a modéstia é de regra. A arrogância teológica é a própria negação do trabalho teológico

1-

Quando escrevi o texto publicado no passado domingo, ainda era cedo para falar da viagem do Papa aos EUA e à ONU. Agora, sinto-me dispensado de voltar a esse tema. Os meios de comunicação foram abundantes na cobertura do acontecimento e, no geral, realçaram o êxito das intervenções do bispo de Roma. Terá, no entanto, resultados indesejáveis se as comunidades católicas continuarem a reduzir o seu horizonte ao que faz, diz e deixa de fazer e de dizer Bento XVI. Mesmo sem o desejar, acabam por se desresponsabilizar, depositando, no Papa, todas as esperanças e decepções.


O culto da personalidade vive dessa preguiça. Ainda há bem poucos anos, era inimaginável um Papa melhor do que João Paulo II. Qualquer discordância era vista como uma infidelidade à Igreja. Neste momento, não se perde nenhuma ocasião para exaltar o Papa teólogo e receber, como palavra divina, tudo quanto sai da sua boca ou da sua pena. Já não é suficiente que seja um bom teólogo, com uma boa carreira académica, entre muitos outros bons teólogos e académicos de várias correntes. A propaganda tenta fazer dele o teólogo, o único, no meio do deserto.

2 –

Na missa do domingo passado, S. Pedro, na sua Primeira Carta, procurou democratizar o sacerdócio, a realeza e a profecia. Hoje, e na mesma carta, tenta democratizar a teologia: "Estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pede. Fazei-o, porém, com brandura e respeito." E, no caso de os cristãos serem perseguidos, que isso aconteça por fazerem o bem, não por fazerem o mal.


O imperativo, "estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança", significa que a prática teológica, exigida a todos, não pode ser substituída por um corpo de especialistas, por mais indispensáveis que eles sejam. É normal que qualquer grupo religioso procure aprofundar a sua identidade, mostrando o que tem de específico, aquilo que o distingue dos outros. Quem tentasse eliminar todas as diferenças, para evitar conflitos, facilitar o bom entendimento e o convívio entre todos, acabaria numa ditadura.

Neste momento, vive-se uma situação paradoxal: por um lado, exalta-se o pluralismo religioso e, por outro, afirma-se, com insistência, que as religiões são todas a mesma coisa, são todas equivalentes. Deus, se existe, é só um e não vale a pena andar a esforçar-se por mostrar concepções diferentes acerca do que se sabe muito pouco. Quando se afirma o pluralismo religioso, talvez se procure defender as minorias para não serem esmagadas pela maioria e enterrar de vez a intolerância e as guerras de religião. Quem diz que, afinal, as religiões são todas a mesma coisa não sabe muito de nenhuma.

A ignorância pode ser ou não atrevida. O ignorante pode desejar conhecer, escolhendo métodos adequados para a descoberta. Mas pode, também, ficar por leituras avulsas que alimentam alguma curiosidade para conversas de circunstância, aumentando o número de pretensiosos pseudo-eruditos.

3 –

Quando S. Pedro exorta os cristãos a estarem prontos a dar razão da sua esperança, não pretende formar comunidades de tagarelas, mas comunidades estudiosas e actualizadas. Ora, o estudo supõe informação rigorosa e "veemente aplicação da inteligência", como diz S. Tomás de Aquino. No campo da teologia, a modéstia é de regra. A arrogância teológica é a própria negação do trabalho teológico. De Deus tanto mais saberemos quanto mais nos apercebermos que excede tudo o que dele pensamos saber. Daí a importância da chamada "teologia negativa". Ela não permite repouso em nenhuma afirmação.

Qual será, então, a essência da esperança cristã e que razões teremos para esperar, mesmo contra toda a esperança?

No coração da própria Eucaristia ecoa sempre uma voz: "Fazei isto em memória de mim." Mas que memória é essa? Estará Jesus Cristo a desejar que os cristãos estejam sempre a lembrar-se dos seus inimigos, daqueles que o crucificaram, difundindo, através dos séculos, o ressentimento e esperando o momento exacto para a vingança? Teria Jesus algo a ver com a ira de Iavé, com o Deus dos exércitos que espalha o terror e o sangue?

Quem assim pensou ou pensa não está a evocar a memória de Jesus Cristo, mas a de um anticristo qualquer. Se os cristãos não podem deixar de pregar o crucificado, é, precisamente, por causa do que, há dois mil anos, aconteceu na Cruz e que constitui, para sempre, a essência da fé cristã e a raiz da esperança num mundo radicalmente diferente.

Jesus, na Cruz, o condenado à morte, abandonado de tudo e de todos, não pediu que a ira do Deus dos exércitos se abatesse sobre os seus inimigos: "Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem." O Deus que invocou é o Deus do amor misericordioso, do perdão que abre o futuro, mesmo aos inimigos.

A razão da esperança cristã está na insubstituível Árvore da Cruz, fonte de ressurreição de vivos e mortos. A memória cristã é o remédio actual contra o ressentimento e o ódio. Viver no horizonte da esperança cristã é saber que fora do perdão e da reconciliação não há salvação nem para as pessoas nem para os povos.
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