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a revelação de Deus-Andres Torres Queiruga

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Resenha do livro: TORRES Queiruga, Andrés.

A revelação de Deus na realização humana.
Trad. Afonso Maria Ligorio Soares. São Paulo: Paulus, 1995. [pp. 46-73].



Andrés Torres Queiruga, sacerdote, teólogo e professor de Filosofia da Religião na Universidade de Santiago de Compostela, nesta sua belíssima obra busca oferecer-nos, na simplicidade e ao mesmo tempo no rigor científico, uma fé expressa nas categorias de nosso tempo. Como o próprio título indica, o autor objetiva mostrar neste livro que a revelação de Deus acontece na realização do ser humano. Ou, numa citação de Juan Luis Segundo logo na apresentação do livro: “Deus não se revela, a não ser na e para a humanização dos homens e mulheres que buscam dar sentido a suas existências”.



Não obstante a grandeza do livro, nosso olhar se deterá aqui somente sobre o segundo capítulo, no qual Queiruga procurará colocar a concepção tradicional da revelação em questão, a partir dos avanços das ciências na compreensão da Bíblia. Neste capítulo, então, o autor tem como objetivo mostrar que “a revelação – seja lá o que for em sua essência mais íntima – não apareceu como palavra feita, como oráculo de uma divindade escutado por um vidente ou adivinho”, ou como se fosse um ditado divino (concepção tradicional), “mas como experiência viva, como “dar-se conta” a partir das sugestões e necessidades do que estava em volta e apoiada no contato misterioso com o sagrado”. No fundo, quer mostrar a contribuição humana do processo revelador, sua dimensão fundamental, a saber, a história. Tratará essa temática em dois momentos, analisando 1o.) o processo histórico da revelação no Antigo Testamento e 2o.) o humano na revelação do Novo Testamento



Na primeira parte do capítulo, vemos antes de mais nada como a Bíblia, logo no seu surgimento, já manifesta seu caráter de encarnação e de profunda humanidade. A partir da experiência da monarquia (e, portanto, de uma mudança na organização do povo), Israel percebe a necessidade de buscar “uma nova compreensão de si mesmo” a partir da fé. A Bíblia será, pois, “a expressão dessa consciência”. Aqui já nos deparamos com tema de suma importância: a revelação não surgirá a partir de um “ditado verbal” (expressão que o autor gosta de usar!), “e sim como uma necessidade histórica e a conseqüente criação das condições de sua possibilidade”.



Se nos perguntarmos, ainda, de onde vem essa consciência impregnada pela fé em seu Deus, perceberemos que há um “ponto de partida” anterior, cuja experiência marcou toda a história de Israel: é a libertação do Egito. Os relatos bíblicos sobre o êxodo nos trazem narrações grandiosas, mas que historicamente tiveram pouca repercussão no mundo egípcio. Contudo, por uma série de motivos, os hebreus viram nesses mesmos acontecimentos a presença de Deus que os libertava e os conduzia a uma terra onde eles pudessem constituir-se como povo. “O texto nos diz que no fundo original de tudo estão um homem e uma experiência contagiante: Moisés e sua interpretação dos acontecimentos”. Aqui, o ponto alto da reflexão nos leva a concluir que, no fundo, a essência da revelação não está em ouvir vozes do céu, mas em discernir os sinais dos tempos, numa linguagem do Vaticano II; está em perceber a presença viva de Deus nos acontecimentos, presença que pede de nós uma resposta, uma atitude comprometedora.



Esse tema nos coloca diante de outro de igual importância para o desenvolvimento deste capítulo: é o tema do movimento profético. Num primeiro momento impressiona a força e a vitalidade com que a revelação se dá nos profetas. Temos a impressão de que estes têm um contato privilegiado com Deus. “Contudo, também neles, quanto mais se sintoniza sua experiência, mais se aprecia a presença do homem, da sociedade e da história concreta nas próprias entranhas do processo”. A principal característica do movimento profético parece ser não a inovação do processo revelatório, mas sim a fidelidade com a qual os profetas vivem a fé em Iahweh. Nesse sentido, o que trazem não são novas imagens de Deus, novos códigos éticos, mas uma vivência mais plena desse Deus. “O que fizeram foi tomar a nova realidade de Deus por eles experenciada, colocando-a em relação com todos os âmbitos da vida”. Eis que surge de novo o tema da encarnação da revelação: é da inserção do profeta nas realidades sociais, políticas e culturais, vivida num contato profundo com Deus, que nasce a sua palavra ou a “Palavra de Iahweh”.



Ainda vemos esse impulso – que brota da história – presente nos Salmos e na Literatura Sapiencial. Nos Salmos aprendemos que à Palavra de Deus “pertence não só o que Ele tem a nos dizer, mas também o que de nós quer ouvir”. Nesta afirmação de Queiruga percebemos claramente que a articulação da revelação supõe a contribuição humana. Também na literatura sapiencial nós percebemos isso, uma vez que esta irá ser ocupar praticamente da vida ordinária apoiada na reflexão racional. Nesse trabalho, a literatura sapiencial descobre “em seu esforço reflexivo a presença iluminadora de Deus”. Em todas essas considerações, o que mais importa é perceber que a revelação brota da “Sitz im Leben”, das circunstâncias vitais da história do povo de Israel. Nas palavras do autor: “A revelação se realiza incorporando em si a carne e o sangue do esforço humano”.



Estas conclusões não estão menos presentes no Novo Testamento, muito pelo contrário: “as ciências bíblicas e depois dela, muito lentamente, a teologia acabaram comprovando que a densidade humana em que se encarna a revelação neotestamentária não é menor que a do Antigo Testamento”. Para verificarmos tal dimensão do NT basta olharmos, por exemplo, a diversidade dos Evangelhos, diversidade que não é acidental, mas reflete a situação histórica, política e social – em âmbito global ou pessoal – vivida pelo autor, e sua resposta a essa situação.



Outro exemplo que se nos apresenta é o da consciência de Jesus. Até aqui ficou claro que a teologia hoje está de comum acordo no que se refere à impossibilidade de “continuar pensando na revelação como num ditado”. Mas, e Jesus? Sempre possuiu plena consciência de sua divindade (como defende a teologia clássica) ou tal consciência também teve que passar por mediações humanas? Nesse ponto a teologia não tem plena certeza. Mas mesmo sem ter tudo plenamente claro, a teologia “já compreende irreversivelmente que a divindade de Jesus se realiza em sua autêntica humanidade”. “A mesma pessoa que “crescia em estatura” (...) também “crescia em sabedoria e em graça” (Lc 2,25)”. Isso significa que também para Jesus houve um processo autenticamente humano que o levou à descoberta de sua união “única e inefável” com o Pai. Essa conclusão, longe de negar sua divindade, o afirma, e dá maior importância ao “caráter encarnatório do processo revelador”.



Este texto, como já foi dito no começo, foi escrito com a intenção de nos colocar diante do processo revelatório entendendo-o não como intervenções extraordinárias de Deus no mundo, mas sim como um processo na qual o homem e a mulher percebe seu emergir, vivo e real, da própria experiência vital, na medida em que se coloca em relação com o sagrado. A este respeito, é inevitável não pensar na bonita imagem de Carlos Mesters, em seu livro A flor sem defesa, no qual ele diz que o primeiro livro que Deus escreveu para os homens foi o livro da vida; o livro da Bíblia veio só depois, porque o homem não acolheu o primeiro...



Essa imagem nos parece iluminadora na medida em que nos ajuda a entrar na dinâmica do processo revelador, compreendendo a “Palavra de Deus” em seu lugar mais adequado. A teologia clássica, em seu afã por dar um tom solene (e demasiado “abstrato”, “metafísico”) à revelação, contribuiu para que sua compreensão se afastasse do sentido bíblico (afastando-o também da realidade humana). Felizmente as ciências bíblicas muito têm contribuído no sentido de dar à revelação bíblica sua justa fisionomia, reconhecendo a primazia do Espírito, mas mostrando que “isso que chamamos revelação dá-se somente na densidade do humano”. Afinal é a ele, ao humano, que a revelação está “endereçada”. Retomando a frase de Juan Luis Segundo: “Deus não se revela, a não ser na e para a humanização dos homens e mulheres que buscam dar sentido a suas existências”. Por isso não podemos dissociar o divino do humano, o eterno do histórico, e vice-versa. Trata-se, enfim, de um texto altamente recomendável, de cuja leitura tirarão proveito todos aqueles interessados em uma abordagem competente sobre a teologia da revelação.







Rodrigo Assis Rosa, OMV

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