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O espírito do cristianismo - Frei Bento

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O espírito do cristianismo
Frei Bento Domingues O.P. - 20080511
O cristianismo é a religião da saída da religião e pode encarnar uma das figuras possíveis do futuro da religião1O conhecido aforismo de Marcel Gauchet - "o cristianismo é a religião da saída da religião" - provocou, paradoxalmente, um outro: "O cristianismo é a religião do futuro da religião", cujo sentido é explicitado por Jean-Paul Willaime (1).
Nas análises sociológicas acerca da evolução do cristianismo, este sociólogo distingue, de forma esquemática, três momentos que não são estritamente cronológicos. Um primeiro momento é marcado pelo choque entre religião e modernidade e, empiricamente, alimentado pelo conflito entre o catolicismo intransigente e os ideais do mundo moderno. Foi dominado por um paradigma interpretativo da secularização: quanta mais modernidade, menos religião e menos cristianismo. Numa modernidade em expansão, como poder racionalizador e dessacralizante, o futuro do cristianismo parecia ameaçado.
Num segundo momento, o interesse pela sociologia de Max Weber e de Ernst Troelstch - caracterizada pela atenção às génesis religiosas da modernidade ocidental - descobria que esta modernidade desmitificadora tinha algumas das suas raízes no judaísmo e no cristianismo, sobretudo nas suas expressões protestantes.
Num terceiro momento, aberto com o debate internacional sobre a pós-modernidade, o cristianismo já não aparece como antimoderno ou pré-moderno, mas como ultramoderno, no sentido que J.-P. Willaime dará a este termo. Ao ser a religião da saída da religião, o cristianismo torna-se a religião do futuro da religião. Integra na sua autocompreensão não só o carácter laico e pluralista da sociedade, mas também o princípio fundamental da liberdade do indivíduo e da sua autonomia. Neste terceiro momento, o cristianismo é uma oferta de sentido, aponta para Deus e para o próximo, tem exigências éticas, mas sem impor normas. Inscreve-se numa sociedade de debate que procura ajustar constantemente as suas normas às evoluções da vida.

2 Este sociólogo não se demora nas estatísticas nem se preocupa com as notícias derrotistas dos meios de comunicação. Não ignora o enfraquecimento social do cristianismo, em França e na Europa, atestado pela diminuição do número de pessoas que se identificam como cristãs e pela baixa da prática cultual. Hoje, num país como a França, menos de metade dos jovens foram formados no cristianismo e, portanto, mais de 50 por cento dos jovens já não o foi. Esta é uma configuração inédita da qual ainda não se podem medir todas as consequências. Estes jovens, porém, não se reclamam do ateísmo. Situam-se num indiferentismo e num probabilismo, mas a partir da experiência individual, abrem-se a formas alternativas de religiosidade, a algo espiritual, embora não forçosamente cristão. Isto significa que as Igrejas cristãs perderam poder sobre os indivíduos e a sociedade. No entanto, como observa Jean Delumeau, não se trata do fim do cristianismo, mas do fim do cristianismo como poder.
Esta perda de poder corresponde a uma "saída da re-
ligião", se for entendida como "saída de um mundo onde a religião era estruturante, onde comandava a forma política das sociedades e no qual definia as regras do laço social". Isto não é o fim do cristianismo, antes pelo contrário. O próprio cristianismo não é estranho a este fim do religioso como poder englobante e estruturante. Integra, cada vez mais, na sua autocompreensão, a saída desse tipo de religião, como mostrou Marcel Gauchet. É a esta luz que Willaime defende a seguinte tese paradoxal: "É precisamente porque o cristianismo é a religião da saída da religião que pode encarnar, hoje, uma das figuras possíveis do futuro da religião".
A guerra de duas Franças - católica e laica - e o choque frontal que se produziu nesse país, entre o catolicismo intransigente e a modernidade secularizadora, não devem ocultar a genealogia judaico-cristã da modernidade ocidental. O cristianismo contribuiu, de forma decisiva, para a emergência desta modernidade. A encarnação confirma, efectivamente, tanto a dignidade do mundo como a sua diferença com Deus.

3 O famoso aforismo "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22, 21) e a declaração de Jesus, diante de Pilatos, "o meu Reino não é deste mundo" (Jo 18, 36) pertencem às origens do cristianismo. É o princípio da separação do poder político e das instituições religiosas. Apesar de todas as interferências e confusões político-religiosas, no regime de Cristandade, este princípio criou, desde o começo, uma tensão propícia à eclosão do Estado moderno emancipado de toda a tutela religiosa.
Seria um exagero circunscrever o espírito do cristianismo - o Espírito plu-
ral do Pentecostes - às expressões do seu devir ocidental. Foram e são mui-
tas expressões do cristi-
anismo. O devir das socie-
dades, das religiões e do cristianismo não está limi-
tado pelas nossas previsões. O cristianismo tem a missão de ajudar a descobrir, a revelar o segredo e a graça da transformação da vida em novas criações de fraternidade. Deixemos o Espírito Santo à solta, tanto nas igrejas como nas sociedades.
(1) Jean-Paul Willaime, Le Christianisme: une religion de l"avenir de la religion?, in René Rémond (dir.), Les Grandes Inventions du Christianisme, Paris, Bayard, 1999.


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"Reconstroi a minha igreja" Disse o Senhor a S. Francisco de Assis... Realmente só uma igreja plural e comunitária, diversa e dialogante poderá ser caminho para que cada vez mais o homem se eleve ao divino...

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