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Uma revolução traída?--Frei Bento

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Uma revolução traída?

08.06.2008, Frei Bento Domingues O.P.


O "código da santidade" gera uma sociedade discriminatória. O "código da compaixão" gera uma sociedade inclusiva


1.De que revolução e de que traição se pretende falar? Talvez se possa dizer em duas palavras: Jesus era um judeu - talvez um "judeu marginal"(1) - que preferiu seguir, sem condições, o "código da compaixão" (Mt 9, 9-13) em vez do "código da santidade" (Lv 17 - 26). É o ponto de vista de José António Pagola (2).
As Igrejas cristãs, de formas bastante diferentes, acabam, na prática, por confessar que talvez não seja muito possível, neste ponto, seguir Jesus de Nazaré, sem perigo de autodestruição. Por outro lado, não podem riscar dos seus textos fundadores os testemunhos, mesmo os mais gritantes, dessa revolução. Mais ainda: sentem-se obrigadas a proclamá-los, sem rodeios, na sua própria liturgia, como acontece, na Igreja católica, na celebração deste domingo. Importa, antes de mais, compreender em que consistiu essa revolução.
Nas camadas mais baixas da Galileia do tempo de Jesus, abundavam os indesejáveis: os que não conseguiam sair da sua condição de indignidade, os pobres de pedir e as prostitutas. Estas, para sobreviver, tinham de renunciar à sua honra de mulheres.

Esta situação era mantida e alargada pelo sistema de pureza vigente, que acentuava as discriminações na sociedade a que Jesus pertencia. Desde a invasão da cultura helénica, impulsionada por Alexandre Magno, aquele pequeno povo viu-se obrigado a defender, com todas as suas forças, a sua identidade ameaçada. Para sobreviver era preciso reafirmar a sua adesão incondicional à Lei, ao Templo, ao respeito do Sábado - sinal de identidade de Israel no meio dos povos - e a promover uma política de separação dos gentios e dos impuros. Para isso, era fundamental o cumprimento do "código de santidade", uma estratégia de separação do puro e do impuro, do santo e do pecador: "Sede santos porque Eu sou santo".

Este sistema de pureza ritual teve como resultado, talvez inesperado, o endurecimento das diferenças e discriminações dentro do próprio povo. Por nascimento, os sacerdotes e levitas gozavam de uma santidade superior; os que observavam o "código de santidade" gozavam de maior dignidade do que aqueles que viviam em contacto com os gentios ou que, como os publicanos e prostitutas, exerciam profissões que implicavam, de facto, uma permanente transgressão desse código. E, depois, vem o mundo dos leprosos, eunucos, cegos, coxos, doentes e mulheres, suspeitas sempre de impureza pela sua menstruação e partos. Estes são os impuros, afastados do Deus Santo e do Templo. A própria vida impedia a maioria de cumprir as normas de pureza e as purificações rituais. A sua exclusão do Templo parecia mostrar que era o próprio Deus que os afastava, não suportando a sua proximidade.

2.Jesus não via as coisas assim. Perante o proclamado "código de santidade" - "sede santos porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo" - Ele introduz outra exigência que transforma, de forma radical, o modo de entender e viver a "imitação" de Deus, e propõe: "Sede misericordiosos (compassivos) como o vosso Pai é misericordioso (compassivo)". Jesus podia reclamar-se da tradição profética: "Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos" (Oseias 6, 3-6).

Jesus não nega a "santidade" de Deus, mas o que qualifica essa santidade não é a separação do impuro, mas o seu amor compassivo. Deus é grande e santo, não porque vive separado dos impuros, mas porque é compassivo com todos e "faz brilhar o sol sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos" (Mt 5, 45).
Jesus faz uma verdadeira revolução: o "código da santidade" gera uma sociedade discriminatória; o "código da compaixão" gera, pelo contrário, uma sociedade acolhedora e inclusiva, mesmo dos sectores sem honra e respeitabilidade. A grande acusação que se repete contra Jesus não é apenas a de ser amigo de publicanos e pecadores, mas de partilhar a mesa com eles, o grau maior de proximidade e de mútua inclusão. E não só: de incluir no seu grupo um publicano (Mateus). O texto da Missa de hoje não pode ser mais claro.

Os pecadores eram os que recusavam a Aliança com Deus, desobedecendo à sua Lei. Eram os que profanavam o culto, desprezavam o grande dia da Expiação, assim como os delinquentes, os que colaboravam com Roma na opressão do povo judaico, os usurários, as prostitutas, etc. Se Jesus tivesse acolhido à sua mesa os pecadores para lhes pregar o retorno a Lei, conseguindo que publicanos e prostitutas abandonassem a sua vida de pecado, até poderia ser aplaudido. A surpresa, donde nasce a acusação, é esta: Jesus acolhe os pecadores sem lhes exigir, previamente, o arrependimento, tal como era entendido tradicionalmente, e nem os submete a um rito penitencial, como fazia João Baptista. Oferece-lhes a sua comunhão e amizade como sinal de que Deus os acolhe no seu Reino, ainda antes de terem voltado a prática da Lei e de se integrarem na Aliança. Acolhe-os como eles são, pecadores, confiando totalmente que o Deus de misericórdia os procura e transforma com o seu Amor se não o recusarem.

Será que as leis e regulamentos litúrgicos actuais da Igreja católica testemunham o amor gratuito e o acolhimento incondicional de Deus?

1) John P .Meier, Jesus. A Marginal Jew, Nova Iorque, 2001
2) Jesus, Aproximación histórica, PPC, Madrid; 2001

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