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II-Obediência

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1 II-Obediência em Ter 19 Ago - 6:42

4. Obediência e autoridade

A obediência a Deus é a obediência que podemos realizar sempre. Obedecer a ordens e autoridades visíveis dá-se apenas em ocasiões, três ou quatro vezes em toda a vida (falo, entende-se, das de certa seriedade); contudo obedecer a Deus é algo que se dá muito com freqüência. Quanto mais se obedece, mais se multiplicam as ordens de Deus, porque Ele sabe que este é o dom mais belo que pode dar, o que concedeu a seu Filho predileto, Jesus.

Quando Deus encontra uma alma decidida a obedecer, então toma sua vida nas suas mãos, como se toma o timão de uma embarcação, ou como se tomam as rédeas de um carro. Ele se converte em verdadeiro, e não só em teoria, em «Senhor», em quem «rege», quem «governa» determinando, pode-se dizer, momento a momento, os gestos, as palavras dessa pessoa, seu modo de utilizar o tempo, tudo.

Esta «direção espiritual» exerce-se por meio das «boas inspirações» e com mais freqüência ainda nas palavras de Deus da Bíblia. Lês ou escutas passagens da Escritura e eis aqui uma frase, uma palavra, ilumina-se. Sentes que te interpela, que te indica o que há que fazer. Aqui se decide se obedece a Deus ou não. O Servo de Javé diz de si em Isaías: «Manhã após manhã desperta meu ouvido para escutar como discípulo» (Isaías 50, 4). Também nós, a cada manhã, na Liturgia das Horas ou da Missa, deveríamos estar com o ouvido atento. Nela há quase sempre uma palavra que Deus dirige-nos pessoalmente e o Espírito não deixa de atuar para que se reconheça entre todas.

Mencionei que a obediência a Deus é algo que se pode fazer sempre. Devo acrescentar que é também a obediência que podemos fazer todos, tanto súditos como superiores. Costuma-se dizer que há que saber obedecer para poder mandar. Não se trata só de uma afirmação empírica; existe uma profunda razão teológica em sua base, se por obediência entendemos a obediência a Deus.

Quando vem uma ordem de um superior que se esforça por viver na vontade de Deus, que orou antes e não tem interesses pessoais que defender, mas só o bem do irmão, então a própria autoridade de Deus faz de suporte de tal ordem ou decisão. Se surge protesto, Deus diz a seu representante o que disse um dia a Jeremias: «Veja que hoje te converti em uma cidade fortificada, como uma coluna de ferro (...). Lutarão contra ti, mas não poderão contigo, pois contigo eu estou» (Jeremias 1, 18 s).

Um ilustre exegeta inglês dá uma interpretação iluminadora do episódio evangélico do centurião: «Eu --diz o centurião-- sou um homem submetido a uma autoridade, e tenho soldados a minhas ordens, e digo a um: “Vá”, e vai; e a outro: ‘Vem’, e vem; e a meu servo: ‘Faz isto’, e o faz» (Lucas 7, Cool. Pelo fato de estar submetido, isto é, obediente, a seus superiores e em definitivo ao imperador, o centurião pode dar ordens que têm detrás a autoridade do imperador; é obedecido por seus soldados porque, por sua vez, obedece e está submetido a seu superior.

Assim --considera-- ocorre com Jesus com respeito a Deus. Dado que Ele está em comunhão com Deus e obedece a Deus, tem detrás de si a autoridade divina própria de Deus e por isso pode mandar seu servo que cure, e curará, pode mandar a enfermidade que o abandone, e o abandonará [5].

É a força e a simplicidade deste argumento o que arranca a admiração de Jesus e faz dizer que não encontrou jamais tanta fé em Israel. Entendeu que a autoridade de Jesus e seus milagres derivam de sua perfeita obediência ao Pai, como o próprio Jesus explica no Evangelho de João: «O que me enviou está comigo: não me deixou só, porque eu faço sempre o que lhe agrada» (João 8, 29).

A obediência a Deus acrescenta à potestade a autoridade, ou seja, um poder real e eficaz, não só nominal ou de cargo; por assim dizer, ontológico, não só jurídico. Santo Inácio de Antioquia dava este maravilhoso conselho a um colega seu de episcopado: «Nada se faça sem teu consentimento, mas tu não faças nada sem o consentimento de Deus» [6].

Isso não significa atenuar a importância da instituição o do cargo, ou fazer depender a obediência do súdito só do grau de potestade espiritual ou de autoridade do superior, o que será manifestamente o fim de toda obediência. Significa só que quem exerce a autoridade, deve apoiar-se o menos possível, ou só em última instância, no título ou no cargo que desempenha, e o mais possível na união de sua vontade com a de Deus, ou seja, em sua obediência; o súdito ao contrário não deve julgar ou pretender saber se a decisão do superior é ou não conforme a vontade de Deus. Deve presumir que o é, a menos que se trate de uma ordem manifestamente contra a consciência, como ocorre às vezes no âmbito político, sob regimes totalitários.

Sucede como no mandamento do amor. O primeiro mandamento é o «primeiro», porque a fonte de tudo é o amor de Deus; mas o critério para julgar é o segundo mandamento: «Quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 João 4, 20). O mesmo se deve dizer da obediência: se não obedeces aos representantes visíveis de Deus na terra, como podeis dizer que obedeces a Deus que está no céu?

5. Apresentar os assuntos a Deus

Esta via da obediência a Deus não tem, por si, nada de místico ou extraordinário, mas está aberta a todos os batizados. Consiste em «Apresentar os assuntos a Deus», segundo o conselho que um dia deu a Moisés seu sogro Jetro (Cf. Ex 18, 19). Eu posso decidir por mim mesmo tomar uma iniciativa, fazer ou não fazer uma viagem, um trabalho, uma visita, um gasto, e depois, uma vez decidido, rogar a Deus pelo êxito do assunto. Mas se nasce em mim o amor da obediência a Deus, então atuarei de forma diferente: perguntarei a Deus, com o meio simplíssimo que é a oração, se é sua vontade que eu realize essa viagem, esse trabalho, aquela visita, aquele gesto, e depois o farei ou não, mas já será, em todo caso, um ato de obediência a Deus, e não já uma livre iniciativa de minha parte.

Normalmente está claro que não ouvirei, em minha breve oração, nenhuma voz, nem terei resposta explícita alguma sobre o que fazer, ou ao menos não é necessário que a tenha para que o que faço seja obediência. Atuando assim, de fato, submeti o assunto a Deus, despojei-me de minha vontade, renunciei a decidir eu só e dei a Deus uma possibilidade de intervir, se quier, em minha vida. O que agora decida fazer, regulando-me com os critérios ordinários de discernimento, será obediência a Deus.

Como o servidor fiel não toma jamais a iniciativa nem atende uma ordem de estranhos sem dizer: «Devo escutar antes meu patrão», igualmente o verdadeiro servo de Deus não empreende nada sem dizer-se a si mesmo: «Devo orar um pouco para saber o que quer meu Senhor que eu faça!». Assim se cedem as rédeas da própria vida a Deus! A vontade de Deus penetra, desta forma, cada vez mais capilarmente no tecido de uma existência, embelecendo-a e fazendo dela um «sacrifício vivo, santo e agradável a Deus» (Rm 12, 1). Toda a vida converte-se em uma obediência a Deus e proclama silenciosamente sua soberania na Igreja e no mundo.

Deus --dizia São Gregório Magno-- «às vezes nos adverte com as palavras, às vezes, ao contrário, com os fatos», isto é, com os acontecimentos e as situações [7]. Existe uma obediência a Deus --com freqüência entre as mais exigentes-- que consiste simplesmente em obedecer às situações. Quando se viu que, apesar de todos os esforços e os rogos, há em nossa vida situações difíceis, às vezes até absurdas e --em nossa opinião-- espiritualmente não produtivas, que não mudam, é necessário deixar de «dar murros contra a parede», e começar a ver nelas a silenciosa, mas resoluta vontade de Deus em nós. A experiência demonstra que só depois de ter pronunciado um «sim» total e desde o profundo do coração à vontade de Deus tais situações de sofrimento perdem o poder angustiante que têm sobre nós. Vivemo-las com mais paz.

Um caso de difícil obediência às situações é o que se impõe a todos com a idade, ou seja, a aposentadoria da atividade, o cessar da função, ter de passar o testemunho a outros deixando talvez incompletos e suspensos projetos e iniciativas em andamento. Há quem, brincando, disse que a função de superior é uma cruz, mas que às vezes o mais difícil de aceitar não é subir a ela, mas baixar, ser privados da cruz!

Certamente não se trata de ironizar sobre uma situação delicada, ante a qual ninguém sabe como reagir até que não chegue. Esta é uma das obediências que mais se aproximam à de Cristo em sua Paixão. Jesus suspendeu o ensinamento, truncou toda atividade, não se deixou reter pelo pensamento de o que acontecerá com seus discípulos; não se preocupou de que seria de sua palavra, confiada, como estava, unicamente à pobre memória de alguns pescadores. Nem sequer deixou reter pelo pensamento de que deixava sozinha uma Mãe. Nenhum lamento, nenhum intento de fazer mudar a decisão ao Pai: «Para que o mundo saiba que amo o Pai, e que faço segundo o Pai me ordenou. Levantai-vos --disse--, vamos» (João 14, 31).

6. Maria, a obediente

Antes de terminar nossas considerações sobre a obediência, contemplemos um instante o ícone vivo da obediência, aquela que não só imitou a obediência do Servo, mas que a viveu com Ele. Santo Irineu escreve: «Paralelamente (entende-se Cristo novo Adão), encontra-se que também a Virgem Maria é obediente, quando diz: ‘Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra’ (Lucas 1, 38). Como Eva, desobedecendo, converteu-se em causa de morte para ela e para todo o gênero humano, assim Maria, obedecendo, converteu-se em causa de salvação para ela e para todo o gênero humano» [8]. Maria se assoma à reflexão teológica da Igreja (estamos, de fato, na presença do primeiro esboço de Mariologia) através do título de obediente.

Também Maria obedeceu com segurança a seus pais, à lei, a José. Mas não é nestas obediências nas quais pensa Santo Irineu, mas em sua obediência à palavra de Deus. Sua obediência é a antítese exata à desobediência de Eva. Mas --outra vez-- a quem desobedeceu Eva para ser chamada a desobediente? Certamente não a seus pais, dos que carecia; tampouco ao marido ou a alguma lei escrita. Desobedeceu à palavra de Deus! Como o «Fiat» de Maria situa-se, no Evangelho de Lucas, junto ao «Fiat» de Jesus no Getsemani (Cf. Lucas 22, 42), assim, para Santo Irineu, a obediência da nova Eva coloca-se junto à obediência do novo Adão.

Sem dúvida Maria terá recitado ou escutado, durante sua vida terrena, o versículo do Salmo no qual se diz a Deus: «Ensina-me a cumprir tua vontade» (Salmo 142, 10). Nós dirigimos a Ela a mesma oração: «Ensina-nos, Maria, a cumprir a vontade de Deus como a cumpriste tu!».

[1] S. Bernardo de Claraval, De errore Abelardi, 8, 21 (PL 182, 1070).
[2] S. Ireneo, Dimostrazione della predicazione apostolica, 34.
[3] S. Máximo Confessor, In Matth., 26, 39 (PG 91, 68).
[4] Dante Alighieri, Paradiso, 3,85.
[5] Cfr. C.H. Dodd, Il fondatore del cristianesimo, Leumann 1975, p. 59 s.
[6] S. Ignacio de Antioquía, Lettera a Policarpo, 4,1.
[7] S. Gregorio Magno, Omelie sui vangeli, 17,1 (PL 76, 1139).
[8] S. Ireneo, Adv. Haer. III, 22,4.

[Tradução do original realizada por Zenit]
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