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a Obediência de Cristo

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1 a Obediência de Cristo em Ter 19 Ago - 6:44

Sermões de Advento | Sermões de Quaresma
Com o que sofreu, aprendeu a obediência
2006-03-31- Quaresma na Casa Pontifícia

1. Sacrifício ou obediência?

Não se pode abarcar o oceano, mas se pode fazer algo melhor: deixar-se abarcar por ele submergindo-se em um lugar qualquer de sua extensão. É o que sucede com a Paixão de Cristo. Não é possível abraçá-la totalmente com a mente, nem ver seu fundo; mas podemos submergir-nos nela partindo de algum de seus momentos. Nesta meditação gostaríamos de entrar nela pela porta da obediência.

A obediência de Cristo é o aspecto da Paixão que mais se põe em evidência na catequese apostólica. «Cristo fez-se obediente até a morte, e morte de cruz» (Filipenses 2, Cool; «Pela obediência de um só todos serão constituídos justos» (Romanos 5, 19); «Com o que sofreu, aprendeu a obediência, e levado à perfeição, converteu-se em causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem» (Hebreus 5, 8-9). A obediência aparece como a chave de leitura de toda a história da Paixão, de onde esta toma sentido e valor.

A quem se escandalizava de que o Pai pudesse encontrar complacência na morte de cruz de seu Filho Jesus, São Bernardo respondia justamente: «Não é a morte o que o agradou, mas a vontade daquele que morria espontaneamente»: «Non mors placuit sed voluntas sponte morientis» [1]. Assim, não é tanto a morte de Cristo por si mesma o que nos salvou, mas sua obediência até a morte.

Deus quer a obediência, não o sacrifício, diz a Escritura (1 Salmo 15, 22; Hebreus 10, 5-7). É verdade que no caso de Cristo Ele quis também o sacrifício, e o quis desta forma por nós, mas das duas coisas uma é o meio, a outra o fim. A obediência Deus a quer por si mesma, o sacrifício, só indiretamente, como a condição que por si faz possível e autêntica a obediência. Neste sentido, a Carta aos Hebreus diz que Cristo, «com o que sofreu, aprendeu a obediência». A Paixão foi a prova e a medida de sua obediência.

Tentemos conhecer em que consistiu a obediência de Cristo. Jesus, desde criança, obedeceu a seus pais; quando maior submeteu-se à lei mosaica; durante a Paixão submeteu-se à sentença do Sinédrio, de Pilatos… Mas o Novo Testamento não pensa em nenhuma destas obediências, pensa na obediência de Cristo ao Pai. Santo Irineu interpreta a obediência de Jesus à luz dos cantos do Servo, como uma interior, absoluta submissão a Deus, levada a cabo em uma situação de extrema dificuldade:

«Aquele pecado que havia aparecido por obra do lenho, foi abolido por obra da obediência sobre o lenho, pois obedecendo a Deus, o Filho do homem foi cravado no lenho, destruindo a ciência do mal e introduzindo e fazendo penetrar no mundo a ciência do bem. O mal é desobedecer a Deus, como obedecer a Deus é o bem... Assim, pois, em virtude da obediência que prestou até a morte, colocado no lenho, eliminou a antiga desobediência ocorrida no lenho» [2] .

A obediência de Jesus exerce-se, de forma particular, nas palavras que estão escritas sobre Ele e para Ele «na lei, nos profetas e nos salmos». Quando querem opor-se a sua captura, Jesus diz: «Mas como se cumprirão as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?» (Mt 26, 54).

2. Deus pode obedecer?

Mas como se concilia a obediência de Cristo com a fé em sua divindade? A obediência é um ato da pessoa, não da natureza, e a pessoa de Cristo, segundo a fé ortodoxa, é a do próprio Filho de Deus. Pode Deus obedecer a si mesmo?» Tocamos aqui o núcleo mais profundo do mistério cristológico. Procuremos contemplar em que consiste este mistério.

No Getsemani Jesus diz ao Pai: «Mas não seja o que eu quero, mas o que tu queres» (Marcos 14, 36). Todo o problema consiste em saber quem é esse «eu» e quem é esse «tu»; quem diz o fiat e a quem o diz. A esta questão, na antiguidade, deram-se duas respostas bastante diferentes, segundo o tipo de cristologia subjacente.

Para a escola alexandrina, o «eu» que fala é a pessoa do Verbo que, enquanto encarnado, diz seu «sim» à vontade divina (o «tu») que Ele mesmo tem em comum com o Pai e o Espírito Santo. Quem diz «sim» e aquele a quem diz «sim» constituem a mesma vontade, mas considerada em dois tempos ou em dois estados diferentes: no estado de Verbo encarnado e no estado de Verbo eterno. O drama (se de tal se pode falar) acontece mais no seio de Deus que entre Deus e o homem, e isto porque não se reconhece ainda claramente a existência também de uma vontade humana e livre em Cristo.

Mais válida, neste ponto, é a interpretação da escola antioquena. Para que possa dar-se a obediência, dizem os autores desta escola, necessita-se que tenha um sujeito que obedece e um sujeito a quem obedecer. Ninguém se obedece a si mesmo! Como também a obediência de Cristo é a antítese da desobediência de Adão, à força deve tratar-se da obediência de um homem, o Novo Adão, capaz como tal de representar a humanidade. Eis aqui, então, quem é aquele «eu» e aquele «tu»: o «eu» é o homem Jesus; o «tu» é Deus, a quem obedece!

Mas também esta interpretação tinha uma lacuna grave. Se o fiat de Jesus no Getsemani é essencialmente o «sim» de um homem, ainda que esteja indissoluvelmente unido ao Filho de Deus (o homo assumptus), como pode ter um valor universal tal como para poder «constituir justos» todos os homens? Jesus parece mais um modelo sublime de obediência que uma intrínseca «causa de salvação» para todos os que lhe obedecem (Hebreus 5, 9).

O desenvolvimento da cristologia preencheu a lacuna, sobretudo graças à obra de São Máximo Confessor e do Concílio Constantinopolitano III. São Máximo afirma: o «eu» não é a humanidade que fala à divindade (antioquenos); tampouco é Deus que, enquanto encarnado, fala a si mesmo enquanto eterno (alexandrinos). O «eu» é o Verbo encarnado que fala em nome da vontade humana livre que assumiu; o «tu» ao contrário é a vontade trinitária que o Verbo tem em comum com o Pai.

Em Jesus o Verbo obedece humanamente ao Pai! E contudo não se anula o conceito de obediência, nem Deus, neste caso, obedece a si mesmo, porque entre o sujeito e o fim da obediência está toda a extensão de uma humanidade real e de uma vontade humana livre [3].

Deus obedeceu humanamente! Entende-se então o poder universal de salvação contido no fiat de Jesus: é o ato humano de um Deus; é um ato divino-humano, teândrico. Esse fiat é verdadeiramente, por utilizar a expressão de um salmo, «a rocha de nossa salvação» (Sal 95, 1). É por esta obediência que «todos foram constituídos justos».


3. A obediência a Deus na vida cristã

Como sempre, tentemos extrais disso algum ensinamento prático para nossa vida, recordando a advertência da Primeira Carta de Pedro: «Cristo sofreu por vós, deixando o exemplo para que sigais seus passos». Refletir sobre a obediência pode contribuir a criar o clima espiritual adequado na Igreja cada vez que se está diante da eventualidade da mudança de pessoas e de funções.

Enquanto se faz a prova de buscar no Novo Testamento em que consiste o dever da obediência, faz-se uma descoberta surpreendente, isto é, que a obediência é vista quase sempre como a obediência a Deus. Fala-se também, certamente, das demais formas de obediência: aos pais, aos patrões, aos superiores, às autoridades civis, «a toda instituição humana» (1P 2, 13), mas com muito menor freqüência e de maneira muito menos solene. O substantivo mesmo «obediência» utiliza-se única e exclusivamente para indicar a obediência a Deus ou, de qualquer modo, a instâncias que estão da parte de Deus, exceto em uma só passagem da Carta a Filemon, onde indica a obediência ao Apóstolo.

São Paulo fala de obediência à fé (Rm 1,5; 16,26), de obediência à doutrina (Rm 6,17), de obediência ao Evangelho (Rm 10,16; 2 Ts 1,Cool, de obediência à verdade (Gal 5,7), de obediência a Cristo (2 Cor 10,5). Encontramos a mesma linguagem também em outros lugares: os Atos do Apóstolos falam de obediência à fé (At 6,7), a Primeira Carta de Pedro fala de obediência a Cristo (1 P 1, 2) e de obediência à verdade (1 P 1, 22).

Mas é possível e tem sentido falar hoje de obediência a Deus, depois de que a nova e vivente vontade de Deus, manifestada em Cristo, expressou-se e objetivou-se completamente em toda uma série de leis e de hierarquias? É lícito pensar que existe, todavia, depois de tudo isso, «livres» vontades de Deus que há que acolher e cumprir?

Só quando se crê em um «Senhorio» atual e pontual do Ressuscitado na Igreja, só quando se está convencido no íntimo de que também hoje --como disse o Salmo-- «o Senhor fala, Deus dos deuses, e não se cala» (Sal 50, 1), só então se está capacitado para compreender a necessidade e a importância da obediência a Deus. Consiste em prestar escuta a Deus que fala, na Igreja, através de seu Espírito, o qual ilumina as palavras de Jesus e de toda Bíblia e confere a elas autoridade, fazendo delas canais de vivente e atual vontade de Deus para nós.

Mas como na Igreja instituição e mistério não estão contrapostos, mas unidos, assim devemos mostrar que a obediência espiritual a Deus não dissuade da obediência à autoridade visível e institucional; ao contrário, renova-a, reforça-a e a vivifica, até o ponto de que a obediência aos homens é critério para julgar se existe ou não, e se é autêntica, a obediência a Deus.

A obediência a Deus é como o fio central que sustenta uma esplêndida teia de aranha. Baixando desde cima pelo fio que ele mesmo fabrica, o inseto constrói sua teia, perfeita e tendida a todos os lados. No entanto esse fio que pende do alto, que serviu para tecer a tela, não se rompe uma vez terminada a obra; é mais, é o que desde o centro sustenta toda a trama; sem ele, tudo se afrouxa. Se se desprende um dos fios laterais, a aranha se emprega em rapidamente reparar sua teia, mas se se rompe aquele fio do alto, afasta-se; sabe que não há nada que fazer.

Algo parecido acontece a respeito da rede das autoridades e das obediências em uma sociedade, em uma ordem religiosa, na Igreja. A obediência a Deus é esse fio do alto: tudo se construiu a partir dele; mas não ser esquecido nem sequer depois de que se construiu a construção. No caso contrário tudo entra em crise, até proclamar, como ocorreu em anos não distantes: «a obediência já não é uma virtude».

Mas por que é tão importante obedecer a Deus? Por que a Deus importa tanto ser obedecido? Certamente não pela satisfação de mandar e de ter súditos! É importante porque obedecendo fazemos a vontade de Deus, queremos as mesmas coisas que quer Deus, e assim realizamos nossa vocação originária, que é a de ser “a sua imagem e semelhança”. Estamos na verdade na luz e como conseqüência na paz, como o corpo que alcançou seu ponto de quietude. Dante Aliguieri encerrou tudo isso em um verso considerado por muitos o mais belo de toda a Divina Comédia: «e em seu querer se encontra nossa paz» [4
].

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