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A RELIGIÃO NO SÉC. XXI: QUATRO CENÁRIOS-Pe Anselmo Borges

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padre e professor de Filosofia
Anselmo Borges

Na modernidade, segundo a expressão célebre de Max Weber, a racionalidade, a ciência e o materialismo "desencantam" o mundo, mas "não esgotam a necessidade humana de encontrar um sentido para o universo e para a existência". Quem o escreve é Martin Legros, no número de Setembro da revista Philosophie Magazine, que, no quadro do actual "reencantamento do mundo", segundo Peter Berger, apresenta quatro cenários, entrecruzados, para "esta contradição entre racionalidade e aspiração à espiritualidade, matriz do século XXI".

O primeiro cenário é o do retorno das religiões tradicionais renovadas. Segundo M. Eltchaninoff, há razões para o sucesso das religiões ditas clássicas. Face ao desenraizamento citadino, descobre-se que é essencial o laço comunitário e social das religiões. Com a oferta de um quadro de rituais colectivos, narrativas, símbolos, interditos, elas "estruturam a relação com o transcendente".

O segundo cenário é o do ateísmo enquanto combate da razão contra o fanatismo e a superstição e resposta aos enigmas humanos. A ciência e a técnica poderão substituir a religião. O processo de secularização acelerar-se-ia mediante "a convergência das nanotecnologias, das biotecnologias, das ciências da informação e cognitivas". Depois, para quê a religião quando o último limite, a morte, também ele for "talvez afastado"?

Os sociólogos constatam "desregulação" e individualização na fé, podendo Jean-Paul Willaine sublinhar que agora "as pessoas que se identificam como religiosas são menos crentes que antes e as 'sem religião' são menos ateias que antes".

É neste quadro que se insere o terceiro cenário: "a era das espiritualidades". Trata-se de uma "via média entre fé e materialismo". Não se acredita no Deus pessoal dos monoteísmos mas também se não aceita que o mundo, a vida e o Homem se reduzam a átomos, células e neurónios. Talvez não se aceite a vida depois da morte, mas também se recusa "a afirmação dos ateus segundo a qual "não há nada". O sentimento de fusão na natureza como um todo animado, a abertura ao infinito e ao absoluto, uma "espiritualidade sem Deus", segundo A. Comte-Sponville, a "transcendência na imanência", segundo Luc Ferry: "eis a grande tendência do século XXI, que verá cada vez mais os crentes afastarem-se das religiões herdadas e os não crentes espiritualizarem-se".

O quarto cenário é o do enfrentamento dos fanatismos. Alexandre Lacroix cita o vídeo da Al-Qaeda ao reivindicar os atentados de Março de 2004 em Madrid: "Vós amais a vida, nós amamos a morte, e é por isso que vamos vencer." Teremos então chegado ao fim da tolerância e caminhamos para o "choque das civilizações", num quadro de apocalipse? O filósofo Peter Sloterdijk acha provável um "choque dos três monoteísmos" num futuro próximo e segundo diferentes possibilidades de alianças. Para ele, o monoteísmo, ao afirmar um só Deus, que é, portanto, o "Deus mundial", leva consigo os germes da violência.

A agravar a ameaça dos fanatismos está a dinâmica do capitalismo mundial, segundo outro pensador alemão, H. M. Enzensberger: "A única coisa certa é que com o modo com que a humanidade se organizou - 'capitalismo', 'concorrência', 'império', 'mundialização' - o número de perdedores aumenta todos os dias".

Mais pessimista ainda, o famoso antropólogo René Girard teme a concretização do Apocalipse: "A 'guerra justa' de George W. Bush reactivou a de Maomé, mais poderosa porque essencialmente religiosa." "Duas guerras mundiais, a invenção da bomba atómica, vários genocídios, uma catástrofe ecológica iminente não terão bastado para convencer a Humanidade, e os cristãos em primeiro lugar, de que os textos apocalípticos, mesmo se não tinham qualquer valor de predição, diziam respeito ao desastre em curso."

Por mim, quero esperar que o diálogo inter-religioso, com todas as consequências, portanto, também com a activação do melhor da Humanidade, favoreça, como anuncia Jean-Claude Guillebaud, "a emergência de uma cultura universal", não monolítica, mas enriquecida pela mestiçag
em.

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