comnazare

espiritualidades


Você não está conectado. Conecte-se ou registre-se

Espiritualidade do provisório-Frei Bento Domingues

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo  Mensagem [Página 1 de 1]

Espiritualidade do provisório
26.10.2008, Frei Bento Domingues, O.P.
As instituições e as leis das Igrejas só têm sentido como instrucções e recursos de viagem
1.Nos anos incendiados pelo Maio de 68, quando todos os fundamentos pareciam abalados, interessei-me pela "dinâmica do provisório" do irmão Roger Schutz, da célebre comunidade de Taizé. Com ar de troça, um amigo dizia: mas esse irmão Roger não saberá que, em Portugal, há cigarros Provisórios e Definitivos? Os definitivos não tiveram mais sorte do que os provisórios.
Pelo contrário, na Igreja católica, nos finais dos anos 80 do século passado, até algumas proposições que pareciam provisórias - não são dogmas de fé - passaram a ter estatuto de "verdades definitivas".
Não pretendo, como Qohélet, render-me à lei do provisório - ilusão das ilusões, tudo é ilusão: "Há tempo para nascer, tempo para morrer; tempo para plantar, tempo para arrancar o plantado" (Ecl 3,2). No entanto, para S. Paulo, só a caridade, o mais alto dom do Espírito (agapé) - o amor irrestrito e incondicional ao próximo - é para sempre: Ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, eu nada seria. Ainda que distribuísse todos os meus bens e entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor, isso nada me adiantaria. (...) O amor jamais passará. (...) Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor, mas a maior delas, porém, é o amor (1 Cor 13, 2-13). A fé e a esperança são, apenas, virtudes do caminho.
Tomás de Aquino (1224/1225-1274), num outro contexto cultural, dirá que a lei do Novo Testamento consiste principalmente na graça do Espírito Santo, graça do amor e da liberdade. Tudo o resto conta na medida em que prepara o seu acolhimento, favorece e exprime a sua floração e os seus frutos (ST, M, q. 106, a.1).

2.Seria, porém, temerário desprezar a Igreja como instituição em nome da pureza do Evangelho de Cristo, esquecendo que o Verbo se fez "carne", fragilidade humana. O Evangelho da fraternidade precisa da instituição para que a sua energia não se dissolva. Importa, no entanto, que as instituições e as leis das Igrejas não se tornem um objectivo ou um fim. Só têm sentido como instrucções e recursos de viagem. Christian Duquoc escreveu, precisamente, uma obra de eclesiologia ecuménica sobre o carácter provisório das Igrejas (1). A sua tese, embora subtil, é simples. A Igreja de Cristo afirma-se na multiplicidade das Igrejas, mas elas não devem seguir a tendência para a exclusão, lei natural dos grupos. Nenhuma deve estar tão imersa no profano a ponto de já não se diferenciar dele; nenhuma deve assumir o profano com a ilusão de o transubstanciar. A visibilidade das Igrejas não é a antecipação do Reino de Deus: nem na forma de celebrar, nem na vida social, nem no valor espiritual. Essa visibilidade serve para afirmar uma ordem simbólica, abrindo o quotidiano a uma dimensão de gratuitidade e de comunhão, traço de Deus em Cristo. O modelo das Igrejas cristãs deve ser o acontecimento da Páscoa: Aquele, que todos julgavam definitivamente morto, vive para sempre. Elas devem proclamá-lo, no quotidiano, transformando a vida.

3.A objecção a esta esperança é grave: a nossa história desenrola-se sob o domínio da violência e a morte parece vitoriosa; as Igrejas nem sempre reconhecem que são provisórias nas suas formas, imperfeitas e criticáveis nas suas opções e condutas. Diz-se que o Espírito de Cristo nunca faltará à Igreja, mas as Igrejas, santas e pecadoras, podem faltar à convocatória da sua Palavra. Numa leitura retrospectiva, não reparando no que falhou, é sempre possível dizer que, em cada época, surgiram as iniciativas de que precisavam para se manterem em movimento (2).
João Paulo II, secundado pelo cardeal Ratzinger, destacou a importância dos novos movimentos eclesiais, privilegiando aqueles que reproduzem as suas opções. Mas é uma maneira de dizer que também esses são provisórios.
O Graal, um movimento internacional feminino, surgiu em 1921, na Holanda. Com a participação de mulheres de vários mundos [Maria de Lurdes Pintasilgo, na foto, foi uma das personalidades portuguesas mais marcantes], celebra, neste fim-de-semana, em Fátima, o jubileu da sua entrada em Portugal, interrogando a sua história no horizonte do futuro: "Que raízes e que espírito nos moveram no passado e nos movem hoje? Como identificar hoje os grandes desafios do mundo? Será possível proteger a Terra duma catástrofe ecológica? Que acessos trilhar para uma vida de qualidade para todos? Terão as mulheres um gesto diferente ou a igualdade é o alvo? Poder-se-á passar do medo da diferença cultural ao louvor da alteridade? Que ética para enfrentar os novos problemas?"
Enquanto "tribo" dentro da comunidade da Igreja, o Graal investe numa liturgia ligada aos problemas e questões do mundo actual, expressão de uma Igreja inclusiva e aberta a todos, inscrevendo-se nas inquietações espirituais do nosso tempo.
A espiritualidade do provisório não é a resignação à ditadura do momento, à sedução do evanescente. É um caminho de sabedoria que, no quotidiano agitado e fragmentado, escuta a voz do Mistério presente em tudo para nada idolatrar.
(1) Des Églises provisoires. Essai d'ecclésiologie ecuménique, Paris, Cerf, 1985.
(2) Fidel González Fernández, I movimenti dalla Chiesa degli apostoli a oggi, Milão, Rizzoli, 20
00

In Público

Ver perfil do usuário

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo  Mensagem [Página 1 de 1]

Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum